Lembrança de  Simone de Beauvoir

 

#5

Exiges de nós

___ dia à dia

mês a mês

a pura face,

 

tal como uma

velha arte no

verdadeiro ___

sentido,

 

perdoa-nos

a nossa

imodéstia  

e disfarce,

 

acho que

conseguis-te e

não foi tempo

perdido.

 

 

#6

Olhaste-te ao

espelho um dia

___ e viste a tua

crua beleza,

 

tu passaste a

torrente de luz

e nem eu ___

bem o sei,

 

pois são mais

os risos do que

lágrimas na

natureza,

 

creio que nada

me desagradou

em ti pois tudo

encontrei.

 

 

#7

Estou convencida

___ que a tua

velhice não foi

um pranto,

 

não foi outra coisa

senão uma

lenta e bela ___

revelação;

 

mais do que uma

espécie de “striptease”

da alma num canto,

 

fazeres anos

deveria ter sido

um gostar cheio

de emoção.

 

 

Lisboa, 9.01.2008

 

 

Lembrança de  Simone de Beauvoir

#1

- Simone

mulher!

hoje fazes

muitos anos,

 

hoje

pertence-te

este primeiro ___

centenário,

 

como no

seguimento

de outros

mais anos,

 

és para

nós todas  

sempre um

“corsário”.

 

 

#2

Enquanto

mulher a

tua vida foi

acidentada,

 

aos quarenta

dois anos  

abriste-nos ___

o teu véu,

 

quanto mais

os anos passam

ficas

gravada,

 

melhor mesmo

é fazer anos

na terra do

que no céu.

 

 

#3

Nestes anos

todos

o tempo

se poisa,

 

fazeres anos

foi uma

delícia não ___

um tormento,

 

foi gostar

de ser mulher

e não qualquer

coisa,

 

embora

os anos

passassem

como o vento.

 

 

#4

Qualquer

uma de nós

passa por eles

sem demora;

 

qualquer

uma de nós

festeja os teus ___

aniversários;

 

mas fazer anos

fazê-los como tu

é deveras ___

muito “fora”,

 

tal como

construí – los

hora à hora contra

os adversários.

 

 

Lisboa, 9.01.2008

 

 

 

 

Lembrança de Simone de Beauvoir

#1

Oh! mulher

quem és tu,

 

— que possuis

o mais belo cu,

 

quando ele

está todo nu.

 

 

#2

Oh! esfinge

que tudo

consente,

 

— vestida

de túnica

somente,

 

na forma

de uma

serpente.

 

 

#3

Oh! como são

redondas e

elogiadas,

 

— as tuas

nádegas

gravadas,

 

— que têm 

borboletas

poisadas.

 

 Lisboa, 5.04.2004

 

 

 

 

 http://www.youtube.com/watch?v=vy-BwMwEDkE

 

 

   No centenário do seu nascimento, Simone é evocada com grande destaque como uma mulher da escrita e da acção, que teve um contributo fundamental para o pensamento feminista.

 

   É certo, que foi uma figura demasiado impura em todos os campos em que atravessou. Ela foi escritora, filósofa e mulher, tendo Júlia Kristeva num artigo do “Magazine Littéraire” dito que Simone manifestou uma outra faceta da sua generosa vitalidade quando encarnou “uma filosofia política da liberdade no microcosmo do íntimo”.

 

   Sabendo que a história do movimento feminista está cheia de tensões e violências, de lutas e excomunhões o livro “O Segundo Sexo” veio criar à sua volta viva polémica e discussão e ataque de que foi alvo. Foi vista como a artífice da alienação das mulheres e obstáculo à emancipação feminina para o Movimento de Libertação das Mulheres.

 

   A rapariguinha parisiense cedo mostrou um espírito de empreendedor e de combate. Quando conheceu Sartre, iniciou-se uma relação para sempre, regida por um pacto de liberdade proposto pelo próprio, em que cada um podia seguir as aventuras amorosas e sexuais que as contingências da vida pessoal exigiam e proporcionavam, sem pôr em causa o amor necessário do casal.

 

   Na obra “O Segundo Sexo” tanto a sua metodologia como nos seus conceitos e categorias fundamentais ao discurso existencialista. É bom lembrar que é aí que ele nasce e não de um qualquer movimento feminista ou de uma vaga feminista latente. Aí defende que a condição empírica de ser mulher, na sua determinação histórica é a seguinte: « Este é um mundo que sempre pertenceu ao macho: mas nenhuma das explicações que para isso foram dadas nos pareceu suficiente. Só retomando os dados da pré-história e da etnologia à luz da filosofia existencial poderemos compreender de que modo se estabeleceu a hierarquia dos sexos.»

 

   Simone enuncia que não se nasce mulher, torna-se mulher: «on ne nait pás femme, on le devient». Que a “mulher” era um facto cultural e se constituía culturalmente como o Outro do homem e que era subtraída à condição de Sujeito. Que “as determinações sociais e culturais aparecem, então, em vez da definição biológica pela maternidade e pela reprodução”.

 

   Fazer com que a mulher ganhe a condição de sujeito foi o grito de liberdade que Beauvoir fez ouvir em muitas latitudes. Para o movimento feminista “diferencialista” as suas posições eram ainda uma sujeição ao princípio masculino e, portanto, um modo de perpetuar a sujeição. Mas Beauvoir reivindicou a igualdade da mulher relativamente ao homem; embora a reivindicação da diferença fosse um outro caminho traçado pelo feminismo mais recente. Também estava já prefigurado em Beauvoir a diferença entre género e sexo bem como a “desconstrução” do género no pensamento das feministas. (1)

 

   A publicação  de “O Segundo Sexo” aos 41 anos, foi durante décadas a Bíblia do feminismo, e vai muito longe: “o slogan” resume todo um programa e dispôs-se a prová-lo. «Nenhum destino biológico, psíquico, económico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.»

 

   Na sua radicalidade a frase «Não se nasce mulher, tornamo-nos mulheres», abriu campo ao conceito de “género” que acabaria por substituir-se à palavra “sexo”em que assenta grande parte das teorias feministas actuais, pressupondo que a ideia de sexo é natural e a de género socialmente construída.

 

   Ora, na época de Simone as questões de definição identitária feminina ou de “género” não se colocaram, mas procurou-se explicar às mulheres que elas não estavam obrigadas a nada daquilo que se dizia defini-las enquanto tais, como Mães, Esposas e Donas de casa.

 

   Actualmente sim, urge saber o que é a identidade feminina, em que se distingue da identidade masculina, problema muito actual, do qual ainda não saímos.

 

   Se o “Segundo Sexo” descrevia um mundo em que as mulheres se vêem condenadas à invisibilidade, a suportar casamentos (moral e sexualmente) insuportáveis, dependentes economicamente do homem e reduzidas a procriadoras da espécie, por outro lado, com a crise da família tradicional, são elas quem suporta o ónus dos filhos, somando o trabalho assalariado à maternidade. (2)

 

   São milhões as mulheres que vivem sem tempo nem dinheiro para gozar a liberdade conquistada. Por outro lado, os homens parecem mais angustiados quanto ao seu novo papel que podem ou devem desempenhar.

 

   Portanto, se muita coisa mudou e se houve revolução no século XX,  ela fez-se no feminino. E para perceber o quanto se avançou na igualdade dos sexos ao longo dos últimas três décadas em Portugal, a sociedade portuguesa actual é um ecrã onde são cada vez mais as mulheres que “vêem coisas muito diferentes e que nem sempre gostam do que vêem”.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

(1) In “SIMONE de BEAUVOIR, Esse Bicho Chamado Castor” texto de António Guerreiro, in: ACTUAL (revista) EXPRESSO ( nº1838) de 19.01.2008.

 

(2) In “SIMONE de BEAUVOIR . Coragem  & Inteligência” texto de Ana Cristina Leonardo, in: ACTUAL (revista) EXPRESSO ( nº1838) de 19.01.2008.

 

Simone de Beauvoir

http://www.youtube.com/watch?v=BS_x7-qbJeQ

http://simonedebeauvoir.free.fr/

http://www.youtube.com/watch?v=ZwuX9ky1dJM 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Beauvoir

http://www.simonebeauvoir.kit.net/

http://www.cddc.vt.edu/feminism/ethnic.html

http://pagesperso-orange.fr/espace-de-beauvoir/

http://www.journeedelafemme.com/

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