“RAÍZES HÚMIDAS” – parte 2, por angela o.
Julho 22, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#5
De costas ___
ou de frente
sou mesmo
desejada,
numa
escrita
fina e
englobante;
___ pois
vivo agora
despida e
apaixonada,
permitindo
toda a
leitura
arrazante.
#6
Morro ___
agora no
exterior
da luz,
vendo o
cavalo
avançar
para ela;
___pois
sem estar
pregada
à cruz,
tenho uma
visão
brilhante
e bela.
#7
Iluminar ___
ou revelar
que sou
potente,
sentir
que tenho
testa de
pedra;
___pois
analisar o
fluxo eléctrico
na mente,
é não recuar
perante
a tortuosa
Fedra.
Lisboa, 2.09.2004.
“A LÍNGUA” – parte 2., por angela o.
Julho 15, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#5
A memória está
comigo agora
___ na porta,
quando a justiça
toca as chamas
da entrada;
a maldição
está connosco
nesta estrada,
como a pele invisível
tocada que se
___ corta.
#6
Os gestos todos
que fiz e me fizeram
___ pedra,
ou quase todos
nesta porosidade
desejada,
são como a membrana
da necessidade
mais amada,
um esquecimento
progressivo de que fui
___ Fedra.
#7
Agora desejo viver
apaixonada e a
___ envelhecer,
em gritos finos e
longos pregada a
esta cruz,
pois o que interessa
é tocar no exterior
da luz,
ou entrar em toda
a parte sem
___ estremecer.
Lisboa, 2.09.2004.
“SILÊNCIO ABSOLUTO” – parte2, angela o.
Julho 4, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#8
o silêncio não é absoluto a
alguém que apetece falar
___ de infernos,
ou quando apetece
muito encontrar
___ alguém,
ou atravessar em
vigília o sono que
___ não vem,
convidado por alguém
para os sonhos
___ eternos.
#9
o silêncio não é absoluto
pois aparece muito claro como
___ a língua,
pois na intersecção está
a língua na língua
___ arrancada,
na desocultação da
língua a minha língua
___ trancada,
naquela língua
transparente da impostura
___ da língua.
#10
o silêncio já é absoluto na
memória que está algures
___ na língua,
quando subo o
primeiro lanço
___ da escada,
ou sinto a nostalgia
infinita da língua
___ arrancada,
neste círculo de
sofrimento da
___ minha língua.
#11
o silêncio já não é absoluto
porque não aparece claro
___ como a língua,
quando subo os teus
degraus e toco à
___ tua porta,
ou se nasceu do
sangue e não está
___ morta,
por ser sombra doente
e nome na minha
___ língua.
#12
o silêncio absoluto é memória
que está comigo algures
___ na porta,
quando a minha justiça
toca as chamas da tua
___ entrada,
ou torna-se maldição
contigo algures na
___ estrada,
como uma pele
invisível tocada que
___ se corta.
#13
o silêncio são os teus
gestos todos que me fizeram
___ pedra,
ou quase todos
nesta porosidade
___ desejada,
tal membrana polida
na necessidade de ser
___ amada,
no esquecimento de
quem se acha ainda
___ Fedra.
#14
o absoluto é desejo de
viver apaixonada e a
___ envelhecer,
em gritos finos e
longos pregada à
___ cruz,
que sempre interessa
tocar no exterior
___ da luz,
e sentir tu entrares e saíres
em toda a parte sem nunca
___ estremecer.
Lisboa, 24.9.2004
“RAÍZES HÚMIDAS” – parte 1, por angela o.
Julho 3, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
Colher!
___ foi a
primeira
palavra,
desta
colheita
que me
espera;
___ pois
me reflue
na cabeça
esta lavra,
de colher
talos na
Primavera.
#2
A palavra
___ colher
é sempre
da mulher,
é como a
beleza nua
do acto na
paisagem;
___ pois o
jardim cantou
e eu seguro
na colher,
mesmo
depois de
abrir o saco
da bagagem.
#3
Esta ___
aventura
reflue agora
junto à fonte,
e tudo são
dádivas
oferecidas
ao amor;
___ pois ao
acto de colher
chamo ceifar
no monte,
longe do olhar
dos deuses
cheios de
temor.
#4
Ouço ___
os teus gritos
neste nosso
silêncio,
enquanto
ainda
não te
falo,
observo ___
o barco
num mar
em vagas;
___ pois
invento o
acto de colher
o duro talo,
(Enquanto
apanho todas
as uvas e
bagas).
Lisboa, 2.09.2004.
“A LÍNGUA” – parte 1, por angela o.
Julho 1, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
A ninguém me
apetece falar
___de infernos,
mas apetece
encontrar-me
com alguém,
atravessar em
vigília o sono
que não vem,
convidado por
alguém em sonhos
___ eternos,
#2
Mas sempre
aparece é claro
___ a língua,
a intersecção da
língua na língua
arrancada,
a desocultação
da língua na
língua trancada,
aquela língua
transparente na impostura
___ da língua.
#3
A memória está
comigo agora
___ na língua,
quando subo
o primeiro lanço
da escada;
é nostalgia
infinita da língua
arrancada,
neste círculo
de sofrimento
___da língua.
#4
Mas nunca
aparece é claro
___ a língua,
quando se sobe
os degraus e
toca-se à porta,
do que nasce
do sangue que
não está morta,
que é sombra
doente sob o nome
___ da língua.
Lisboa, 2.09.2004.
“SILÊNCIO ABSOLUTO” – parte 1, angela o.
Junho 27, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
o silêncio não é
absoluto senão
___ nos cativos,
pois é um ruído
que entra como
___ as aves,
quando a sós
em palpitações
___ graves,
como a batida
cardíaca dos
___ fugitivos.
#2
o silêncio é
absoluto no corpo
___ em liberdade,
como a cidade que
não pára e me deixa
___ inquieta,
nesta hora do
escuro numa fantasia
___ secreta,
onde pensamentos a
milímetros estão
___ em claridade.
#3
o silêncio já é absoluto
nos meus braços
___ abatidos,
nas ancas e nas costas
de onde penso que
___ saem,
como no alto do colchão
onde as pernas
___ caem,
de baixo e de fora
para dentro quando
___ vestidos.
#4
o silêncio já não é
absoluto sem a carne que
___ esconde,
em cada milímetro deste
corpo em que sou
___ cavaleira,
que invento uma suave
queda para trás e sou
___ traiçoeira,
indo até ao fundo do
abismo quando ele me
___ responde.
#5
o silêncio absoluto está
fora de mim quando
__ amada,
quando confortável
aqui onde cheguei em
___ braços,
como no vazio último
da consciência dos
___ espaços,
segura de mim
e de ti quando me deixa
___ arrebatada.
#6
o teu silêncio
é agora um puro
___ amor,
fora de si fora
de mim naqueles
___ braços,
onde ninguém fala
comigo naqueles
___ espaços,
onde só tu me vês
mas eu sou um
___ queimador.
#7
o absoluto é não me
incomodar com esse
___ sorriso bestial,
mas poder sentir um
cansaço por ser dia
___ de resgate,
do meu corpo dos
pensamentos no seu
___ denso combate,
não adormecendo até
que a consciência me seja
___ real.
Lisboa, 24.9.2004
“O PRAZER DA LEITURA” , por angela o.
Junho 11, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
A minha sala
de leitura
é feita de terra
___ escura,
onde me espraio
de prazer
num acto lento;
pois procuro a leitura
da palavra elástica e
___ dura,
que só faz
todo o sentido
na hora do vento.
#2
É o meu tempo
de despertar
até à
___ plenitude,
em gestos que me
acordam de toda a dor;
pois reconheço agora
a alegria da
___ juventude,
onde as palavras
são de prazer
libertador.
#3
Ofereces-me
finalmente a caneta
___ prometida,
que sem pedir licença
escreve a sua linha;
pois ouço agora a
leitura em que estou
___ consumida,
em que o canto
é um pranto
quando presa pela crina.
#4
Da garganta saem
todas as leituras
___ antigas,
e tu bebes as palavras
cheias de saudade;
pois são dádivas de silêncios
mesmo que não
___ o digas,
às paredes que refluem
de prazer e claridade.
#5
Leio toda a literatura
mesmo de pé ou a
___ cavalo,
até na batalha da leitura
mostras toda a crueldade;
pois a flor do prazer
libertador é para ti
___ um talo,
arrancado em prantos
neste canto de liberdade.
#6
Até Bíblias reescrevias
ou lias na minha
___ lua,
ou interpretavas à tua
maneira de pura face;
pois contavas histórias
intermináveis pela
___ rua,
sobre o prazer de ser mulher
num monólogo sem disfarce.
#7
Agora quero essa
boca filtrada pelo
___ vitral,
para beijar sofregamente
a tua doce voz;
pois quero metamorfosear-me
também em
___ vestal,
para ser única a sentir
prazer ao entrar em vós.
Lisboa, 28.07.2004






