Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#5

De costas ___

ou de frente

sou mesmo

desejada,

 

numa

escrita

fina e

englobante;

 

___ pois  

vivo agora 

despida e

apaixonada,

 

permitindo

toda a

leitura

arrazante.

 

 

#6

Morro ___

agora no

exterior

da luz,

 

vendo o

cavalo

avançar

para ela;

 

___pois

sem estar

pregada

à cruz,

 

tenho uma

visão

brilhante

e bela.

 

 

#7

Iluminar ___

ou revelar

que sou

potente,

 

sentir

que tenho

testa de

pedra;

 

___pois

analisar o

fluxo eléctrico

na mente,

 

é não recuar

perante

a tortuosa

Fedra.

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#5

A memória está

comigo agora

___ na porta,

 

quando a justiça

toca as chamas

da entrada;

 

a maldição

está connosco

nesta estrada,

 

como a pele invisível

tocada que se

___ corta.

 

 

#6

Os gestos todos

que fiz e me fizeram

___ pedra,

 

ou quase todos 

nesta porosidade

desejada,

 

são como a membrana

da necessidade

mais amada,

 

um esquecimento

progressivo de que fui

___ Fedra.

 

 

#7

Agora desejo viver

apaixonada e a

___ envelhecer,

 

em gritos finos e

longos pregada a

esta cruz,

 

pois o que interessa

é tocar no exterior

da luz,

 

ou entrar em toda

a parte sem

___ estremecer.

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#8

o silêncio não é absoluto a

alguém que apetece falar

___ de infernos,

 

ou quando apetece

muito encontrar

___ alguém,

 

ou atravessar em

vigília o sono que

___ não vem,

 

convidado por alguém

para os sonhos

___ eternos.

 

 

#9

o silêncio não é absoluto

pois aparece muito claro como

___ a língua,

 

pois na intersecção está  

a língua na língua

___ arrancada,

 

na desocultação da

língua a minha língua

___ trancada,

 

naquela língua

transparente da impostura

___ da língua.

 

 

#10

o silêncio já é absoluto na

memória que está algures

___ na língua,

 

quando subo o

primeiro lanço

___ da escada,

 

ou sinto a nostalgia

infinita da língua

___ arrancada,

 

neste círculo de

sofrimento da

___ minha língua.

 

 

#11

o silêncio já não é absoluto

porque não aparece claro

___ como a língua,

 

quando subo os teus

degraus e toco à  

___  tua porta,

 

ou se nasceu do

sangue e não está

___ morta,

 

por ser sombra doente

e nome na minha

___ língua.

 

 

#12

o silêncio absoluto é memória

que está comigo algures

___ na porta,

 

quando a minha justiça

toca as chamas da tua

___ entrada,

 

ou torna-se maldição

contigo algures na

___ estrada,

 

como uma pele

invisível tocada que

___ se corta.

 

 

#13

o silêncio são os teus

gestos todos que me fizeram

___ pedra,

 

ou quase todos

nesta porosidade 

___ desejada,

 

tal membrana polida  

na necessidade de ser

___ amada,

 

no esquecimento de

quem se acha ainda

___ Fedra.

 

 

#14

o absoluto é desejo de

viver apaixonada e a

___ envelhecer,

 

em gritos finos e

longos pregada à

___ cruz,

 

que sempre interessa

tocar no exterior

___ da luz,

 

e sentir tu entrares e saíres

em toda a parte sem nunca

___ estremecer.

 

 

Lisboa, 24.9.2004

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

Colher!

___ foi a

primeira

palavra,

 

desta

colheita

que me

espera;

 

___ pois

me reflue

na cabeça

esta lavra,

 

de colher

talos na

Primavera.

 

 

#2

A palavra

___ colher

é sempre 

da mulher,

 

é como a

beleza nua

do acto na

paisagem;

 

___ pois o

jardim cantou

e eu seguro

na colher,

 

mesmo

depois de

abrir o saco

da bagagem.

 

 

#3

Esta ___

aventura

reflue agora

junto à fonte,

 

e tudo são

dádivas

oferecidas

ao amor;

 

___ pois ao

acto de colher

chamo ceifar

no monte,

 

longe do olhar

dos deuses

cheios de

temor.

 

 

#4

Ouço ___

os teus gritos

neste nosso

silêncio,

 

enquanto

ainda

não te

falo,

 

observo ___

o barco

num mar

em vagas;

 

___ pois  

invento o

acto de colher

o duro talo,

 

(Enquanto

apanho todas

as uvas e

bagas).

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

A ninguém me

apetece falar

___de infernos,

 

mas apetece

encontrar-me

com alguém,

 

atravessar em

vigília o sono

que não vem,

 

convidado por

alguém em sonhos

___ eternos,

 

 

#2

Mas sempre

aparece é claro

___ a língua,

 

a intersecção da

língua na língua

arrancada,

 

a desocultação

da língua na

língua trancada,

 

aquela língua

transparente na impostura 

___ da língua.

 

 

#3

A memória está

comigo agora

___ na língua,

 

quando subo

o primeiro lanço

da escada;

 

é nostalgia

infinita da língua

arrancada,

 

neste círculo

de sofrimento

___da língua.

 

 

#4

Mas nunca

aparece é claro

___ a língua,

 

quando se sobe

os degraus e

toca-se à porta,

 

do que nasce

do sangue que

não está morta,

 

que é sombra

doente sob o nome

___ da língua.

 

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#1

o silêncio não é

absoluto senão

___ nos cativos,

 

pois é um ruído

que entra como

___ as aves,

 

quando a sós

em palpitações

___ graves,

 

como a batida

cardíaca dos

___ fugitivos.

 

 

#2                                    

o silêncio é

absoluto no corpo

___ em liberdade,

 

como a cidade que

não pára e me deixa

___ inquieta,

 

nesta hora do

escuro numa fantasia

___ secreta,

 

onde pensamentos a

milímetros  estão

___ em claridade.

 

 

#3

o silêncio já é absoluto

nos meus braços

___ abatidos,

 

nas ancas e nas costas

de onde penso que 

___ saem,

 

como no alto do colchão

onde as pernas  

___ caem,

 

de baixo e de fora

para dentro quando

___ vestidos.

 

 

#4

o silêncio já não é

absoluto sem a carne que

___ esconde,

 

em cada milímetro deste

corpo em que sou 

___ cavaleira,

 

que invento uma suave

queda para trás e sou

___ traiçoeira,

 

indo até ao fundo do

abismo quando ele me

___ responde.

 

 

#5

o silêncio absoluto está 

fora de mim quando

__ amada,

 

quando confortável 

aqui onde cheguei em

___ braços,

 

como no vazio último

da consciência dos

___ espaços,

 

segura de mim

e de ti quando me deixa

___ arrebatada.

 

 

#6

o teu silêncio

é agora um puro

___ amor,

 

fora de si fora

de mim naqueles

___ braços,

 

onde ninguém fala

comigo naqueles

___ espaços,

 

onde  só tu me vês

mas eu sou um

___ queimador.

 

 

#7

o absoluto é não me

incomodar com esse

___ sorriso bestial,

 

mas poder sentir  um

cansaço por  ser dia

___ de resgate,

 

do meu corpo dos

pensamentos no seu

___ denso combate,

 

não adormecendo até  

que a consciência me seja

___ real.

 

 

Lisboa, 24.9.2004

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

A minha sala

de leitura

é feita de terra

___ escura,

 

onde me espraio

de prazer

num acto lento;

 

pois procuro a leitura

da palavra elástica e

___ dura,

 

que só faz

todo o sentido

na hora do vento.

 

 

#2

É o meu tempo

de despertar

até à

___ plenitude,

 

em gestos que me

acordam de toda a dor;

 

pois reconheço agora

a alegria da

___ juventude,

 

onde as palavras 

são de prazer

libertador.

 

 

#3

Ofereces-me

finalmente a caneta

___ prometida,

 

que sem pedir licença

escreve a sua linha;

 

pois ouço agora a

leitura em que estou

___ consumida,

 

em que o canto

é um pranto

quando presa pela crina.

 

 

#4

Da garganta saem

todas  as leituras

___ antigas,

 

e tu bebes as palavras

cheias de saudade;

 

pois são dádivas de silêncios

mesmo que não

___ o digas,

 

às paredes que refluem

de prazer e claridade.

 

 

#5

Leio toda a literatura

mesmo de pé ou a

___ cavalo,

 

até na batalha da leitura

mostras toda a crueldade;

 

pois a flor do prazer

libertador é para ti

___ um talo,

 

arrancado em prantos

neste canto de liberdade.

 

 

#6

Até Bíblias reescrevias

ou lias na minha

___ lua,

 

ou interpretavas à tua

maneira de pura face;

 

pois contavas histórias

intermináveis pela

___ rua,

 

sobre o prazer de ser mulher

num monólogo sem disfarce.

 

 

#7

Agora quero essa 

boca filtrada pelo

___ vitral,

 

para beijar sofregamente

a tua doce voz;

 

pois quero metamorfosear-me

também em

___ vestal,

 

para ser única a sentir

prazer ao entrar em vós.

 

Lisboa, 28.07.2004