Lembrança de Adélia Lopes

#1

O homem

nu na sua

passagem,

 

e o olhar

preso ao seu

astro;

 

aquilo nu

na minha

___ paisagem,

 

como uma

bandeira no

___ mastro.

 

 

#2

Mas aquilo

está todo cru

e tapado,

 

e a minha

queda dá-se

no vazio;

 

olho agora o

homem nu e

___ tatuado,

 

e mexo mexo

o botão rosa

___ macio.

 

 

#3

Sinto esta

comunhão de

sensações,

 

a musica

ali toda

ardente;

 

a figura

erótica de

___ tentações,

 

sentida em

qualquer tarde

___ quente.

 

 

#4

Esta minha

vida nunca

fendida,

 

mesmo na

ausência

daquilo;

 

à atenção

se dá toda

___ perdida,

 

em qualquer

lugar

___ tranquilo.

 

 

#5

Pois possuo

o sinal da

realeza,

 

um poder

sobre qual-

quer rio;

 

de ler textos

mudos sem

___ fim,

 

enquanto

tu gritas eu

___ sorrio.

 

 

Lisboa, 24.5.2004

 

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

#1

Oh! aquela voz

o seu convite

___ de novo,

 

(para nos

vermos mas

sem estragos;

 

não que me

repudie o gosto

dos espargos,)

 

mas prefiro comer

peixe cozido

___ com ovo.

 

 

#2

Foram palavras

e mais palavras

___ cheias,

 

(depois ouvi

aquela pausa

quente e pesada,

 

que pela linha

veio muito bem

pensada,)

 

aquela voz

directa e sem

___ peias.

 

 

#3

- Repudia-te comer

carne ou comes

___ peixe?,

 

(e aguardou

a minha

resposta,)

 

preferes comer

antes bacalhau

em posta?

 

foi quando me

despertou o luminoso

___ feixe.

 

 

#4

O Cupido ou

ele disparou

___ a seta,

 

(directo ao

coração envolto

em mel,

 

directo ao

dedo na forma

de anel,)

 

que sonhei

quando alcançava

___ a meta.

 

 

#5

- Quero este

homem para me

___ acordar,

 

(mesmo na derradeira

cama ou num

pufe vermelho,

 

sem luz que

cegue ou com

o teu verdelho,)

 

preciso de tudo

para poder

___ nadar.

                                                  

 

#6

Esta é a última

vontade de estar

___ a dois,

 

(aos meus

namorados antigos

e recentes,

 

deixo segredos

murmurados

entre dentes,)

 

ou a quem mais o

quiser descobrir sem

___ atrapalhar.

 

 

Lisboa, 6.5.2004

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

#1

- Tu fazes

- me um

cafezinho?

 

( E ele descia 

escorrendo

sem norte,

 

os dedos

pela minha

anca de

mansinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da morte,

 

do desapare –

cimento ___

ouves José!

 

(E apalpava-me, 

encostando a

boca à pele).

 

 

#2

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele descia

mais escorrendo

sem perdão,

 

os dedos

pelas coxas

com carinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da solidão,

 

desses nadas

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando a

boca aos pêlos).

 

 

#3

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele escorria

Mais descendo

como um dardo,

 

indo ao mais

fundo do seu

amorzinho),

 

- olha ___ espera,

es-pe-ra: dizia eu,

- quero falar-te

do fardo,

 

do que nos consome

a melhor parte de nós 

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando aquela

húmida e dura boca).

 

 

#4

- E tu Maria

depois fazes

-me um café?

 

(foi quando senti

o fino sopro da

juventude,

 

num hálito___

e num passo

dado sem fé),

 

 - José! não esperes;

dizia ___ mas queria

falar-te da plenitude,

 

do tempo que

não existe no

teu dia-a-dia.

 

(E tocou-me fundo

ouvindo o meu

 grito fino e aberto).

 

Lisboa, 5.4.2005

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

 

#4

Prazer —

és género

feminino;

 

no movimento

primitivo

do desejo

— em nós;

 

mas desejamos – te

ou somos

desejadas?

 

 

#5

Quem és tu

— minha besta?

 

és texto

cristão

— ou a lei?

 

legitimidade

do gozo

— não;

 

és prazer?

— também

não.

 

mal não és

— quem

Tu és?

 

se o prazer

não és?

 

és ideia de

prazer

— talvez;

 

não és gozo

— quem

és Tu?

 

 

#6

Porque

nos pões

— fora de nós?

 

se não gozamos

— então quem

goza por nós?

 

é algo ou

alguém

— mas não TU,

 

que goza

em nós

— mas como?

 

 

#7

És ponte

entre o desejo

e o interdito,

 

ligação perigosa

— mas de

onde vens?

 

és ideia

de gozo

— és um mal?

 

mas aonde?

em que parte

de mim?

 

se dá a

perda

de domínio!

 

 

#8

Não Tu

— mas

do corpo

talvez;

 

coisa

boa

aquilo?

 

— não sei.

 

 

Lisboa, 13.4.2004

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

 

 

#4

Oh! porquê

esta tua

repressão,

 

— quando

fechadas ou

em suspensão,

 

— desenham

uma cruz na

sua constrição.

 

 

 

#5

Oh! mulher

que grande

é a visão,

 

— do orifício

central em

consagração,

 

— como se

fosse um

coração.

 

 

#6

Ai! que cu 

e a tudo

condizer,

 

— sois furor

de grande

prazer,

 

— como um

objecto votivo

a crescer.

 

 

Lisboa, 5.04.2004

Lembrança de Adélia Lopes

 

#1

Prazer

— tu és

aquilo;

a besta?

 

distante

da lei

 — da moral

cristã;

 

porque

só admitir

— a procriação,

 

e não legitimar

o pecado

— de gozar!

 

 

#2

Prazer —

porque és

tu sujo,

 

quando

praticamos

aquilo

— o sexo

genital;

 

a festa

dos sentidos

— a concuspiscência;

 

porque

não aquilo?

— a vida.

 

 

#3

Prazer

— tu és

o recalcamento

do desejo;

 

do sentir

da carne

— em fogo;

 

a intensidade

do todo

— do pensamento.

 

Lisboa, 13.4.2004