“AQUILO EU QUERO”, por angela o.
Agosto 20, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
O homem
nu na sua
passagem,
e o olhar
preso ao seu
astro;
aquilo nu
na minha
___ paisagem,
como uma
bandeira no
___ mastro.
#2
Mas aquilo
está todo cru
e tapado,
e a minha
queda dá-se
no vazio;
olho agora o
homem nu e
___ tatuado,
e mexo mexo
o botão rosa
___ macio.
#3
Sinto esta
comunhão de
sensações,
a musica
ali toda
ardente;
a figura
erótica de
___ tentações,
sentida em
qualquer tarde
___ quente.
#4
Esta minha
vida nunca
fendida,
mesmo na
ausência
daquilo;
à atenção
se dá toda
___ perdida,
em qualquer
lugar
___ tranquilo.
#5
Pois possuo
o sinal da
realeza,
um poder
sobre qual-
quer rio;
de ler textos
mudos sem
___ fim,
enquanto
tu gritas eu
___ sorrio.
Lisboa, 24.5.2004
“O CONVITE”, por angela o.
Julho 28, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
Oh! aquela voz
o seu convite
___ de novo,
(para nos
vermos mas
sem estragos;
não que me
repudie o gosto
dos espargos,)
mas prefiro comer
peixe cozido
___ com ovo.
#2
Foram palavras
e mais palavras
___ cheias,
(depois ouvi
aquela pausa
quente e pesada,
que pela linha
veio muito bem
pensada,)
aquela voz
directa e sem
___ peias.
#3
- Repudia-te comer
carne ou comes
___ peixe?,
(e aguardou
a minha
resposta,)
preferes comer
antes bacalhau
em posta?
foi quando me
despertou o luminoso
___ feixe.
#4
O Cupido ou
ele disparou
___ a seta,
(directo ao
coração envolto
em mel,
directo ao
dedo na forma
de anel,)
que sonhei
quando alcançava
___ a meta.
#5
- Quero este
homem para me
___ acordar,
(mesmo na derradeira
cama ou num
pufe vermelho,
sem luz que
cegue ou com
o teu verdelho,)
preciso de tudo
para poder
___ nadar.
#6
Esta é a última
vontade de estar
___ a dois,
(aos meus
namorados antigos
e recentes,
deixo segredos
murmurados
entre dentes,)
ou a quem mais o
quiser descobrir sem
___ atrapalhar.
Lisboa, 6.5.2004
“TEMPO”, por angela o.
Julho 24, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
- Tu fazes
- me um
cafezinho?
( E ele descia
escorrendo
sem norte,
os dedos
pela minha
anca de
mansinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da morte,
do desapare –
cimento ___
ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca à pele).
#2
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele descia
mais escorrendo
sem perdão,
os dedos
pelas coxas
com carinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da solidão,
desses nadas
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca aos pêlos).
#3
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele escorria
Mais descendo
como um dardo,
indo ao mais
fundo do seu
amorzinho),
- olha ___ espera,
es-pe-ra: dizia eu,
- quero falar-te
do fardo,
do que nos consome
a melhor parte de nós
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando aquela
húmida e dura boca).
#4
- E tu Maria
depois fazes
-me um café?
(foi quando senti
o fino sopro da
juventude,
num hálito___
e num passo
dado sem fé),
- José! não esperes;
dizia ___ mas queria
falar-te da plenitude,
do tempo que
não existe no
teu dia-a-dia.
(E tocou-me fundo
ouvindo o meu
grito fino e aberto).
Lisboa, 5.4.2005
“QUE PRAZER?” – parte 2, por angela o.
Junho 30, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#4
Prazer —
és género
feminino;
no movimento
primitivo
do desejo
— em nós;
mas desejamos – te
ou somos
desejadas?
#5
Quem és tu
— minha besta?
és texto
cristão
— ou a lei?
legitimidade
do gozo
— não;
és prazer?
— também
não.
mal não és
— quem
Tu és?
se o prazer
não és?
és ideia de
prazer
— talvez;
não és gozo
— quem
és Tu?
#6
Porque
nos pões
— fora de nós?
se não gozamos
— então quem
goza por nós?
é algo ou
alguém
— mas não TU,
que goza
em nós
— mas como?
#7
És ponte
entre o desejo
e o interdito,
ligação perigosa
— mas de
onde vens?
és ideia
de gozo
— és um mal?
mas aonde?
em que parte
de mim?
se dá a
perda
de domínio!
#8
Não Tu
— mas
do corpo
talvez;
coisa
boa
aquilo?
— não sei.
Lisboa, 13.4.2004
“Ai_ Ki _ Ku” – parte2 , por angela o.
Junho 24, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#4
Oh! porquê
esta tua
repressão,
— quando
fechadas ou
em suspensão,
— desenham
uma cruz na
sua constrição.
#5
Oh! mulher
que grande
é a visão,
— do orifício
central em
consagração,
— como se
fosse um
coração.
#6
Ai! que cu
e a tudo
condizer,
— sois furor
de grande
prazer,
— como um
objecto votivo
a crescer.
Lisboa, 5.04.2004
“QUE PRAZER?” – parte 1, por angela o.
Junho 6, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
Prazer
— tu és
aquilo;
a besta?
distante
da lei
— da moral
cristã;
porque
só admitir
— a procriação,
e não legitimar
o pecado
— de gozar!
#2
Prazer —
porque és
tu sujo,
quando
praticamos
aquilo
— o sexo
genital;
a festa
dos sentidos
— a concuspiscência;
porque
não aquilo?
— a vida.
#3
Prazer
— tu és
o recalcamento
do desejo;
do sentir
da carne
— em fogo;
a intensidade
do todo
— do pensamento.
Lisboa, 13.4.2004





