“Angelina nunca chora”– por angela o.
Setembro 8, 2008
Lembrança de Artemisa Coimbra.
#1
- Assim pensava eu: “Ah! sim,
eu amo o meu namorado” e toda
a rapariga merece conhecer a dor
na flor dos anos – “c’est tout !”.
___mas tudo começou
um dia inespera-
damente,
para que a incrédula
angelina conhecesse
o seu choro;
todos se interrogavam
quem seria
aquele doente,
aquela forma
insegura de choro
nas mãos do mouro.
(- “Maridinho! Sabias que há
rapazes desequilibrados,
gente que usa e abusa da
condição física e até mata.)
#2
- Assim pensava eu: “Ah! sim,
eu amo o meu marido” e toda a
esposa merece conhecer a dor
na flor dos anos – “c’est tout !”.
___ mas inesperada-
mente da janela
subia aquele choro,
vindo do pátio
do lado sem luz
pois anoitecia;
do quarto se ouvia
a violência no ar
do silvo a couro,
a deselegância
do som que a todos
nos oprimia.
(- “Maridinho! Porque há
demasiados homens que
maltratam as esposas,
até na presença dos filhos?”).
#3
- Assim pensava eu: “Ah! sim,
eu amo o meu amante” e toda a
mulher merece conhecer a dor
na flor dos anos – “c’est tout !”.
___ mas não
era a primeira vez
confessou-me Angelina,
nem a segunda
ou seguramente
a última vez,
(que aquele som
vinha de dentro num
choro de menina);
choro que ia
subindo em violência
sobre a minha tez.
(- “Maridinho! Sabias que há
amantes, gente de mau carácter
que usa e abusa da condição
física e que finalmente mata.)
#4
- Assim pensava eu: “Não!,
eu amo o meu namorado”
e se tenho de sofrer tudo
– Meu Deus que não seja tudo já!)
___ era a violência
de dentro dos homens
como lama impura,
vindo do fundo
sem decoro que
não passa,
que nos fala
connosco como
nódoa escura,
na voz de ninguém
vindo da janela
sem vidraça.
(- “Maridinho! Sabias que
há namoradas que morrem
porque tiveram o azar de
dormir com outros rapazes?
#5
- Assim pensava eu: “Sim!,
eu amo o meu marido” e se
tenho de sofrer tudo esta noite
– Meu Deus que seja tudo já!)
___ um silvo apenas
no ar horrível
como de um cinto,
som instalado nos
muitos silêncios
do pátio perdido,
sem crianças ou
televisões só o seu
choro contido,
estranho o silêncio
nocturno horrível
que tudo sinto.
(- “Esposo! Sabias que há
quem morra em Portugal
porque teve o azar de casar
ou dormir com o inimigo?)
Lisboa, 15.11.04
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“POLITICA A DOIS” por angela o.
Agosto 26, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#1
Numa discussão política
nunca se descobre
___ a verdade,
mesmo se ditas em
silêncio as palavras
___ estremecem,
que ninguém te
convide se for por
___ vaidade,
a sentares à mesa
e depois te dizerem que
te conhecem.
#2
Qualquer discussão à mesa
pode ser um amargo
___ castigo,
mesmo entre amantes
que se conhecem com
___ alguma calma,
até podem ser muito
jovens e só mostrarem
___ o umbigo,
que desperdício discutir
política à mesa sem
fulgor ou alma.
#3
Lembras-te quando
te descobri numa longínqua
___ recordação,
aquele teu marco o 1º de Maio
na Alameda que te
___ maravilhou,
(que por mim foi escolhida
por a teres vivido com intensa
___ emoção),
pois quando se é jovem
todo e qualquer
jardim cantou!
#4
Mas preferiste terminar
a noite numa conversa
___ dispersa,
quando a política começou
na muda das minhas
___ doces luas,
na Casa do Alentejo
naquele primeiro andar
___ onde a conversa,
sobre o sobrado decadente
embriagou-nos de todas
as praias nuas.
#5
“Rouca doçura a
desta onda de espuma”
– ouviste-me contida,
fechei os olhos e agarrei
com torpor a coluna de
___ alabastro,
convidaste para sairmos
pois estava toda tremula e
___ sentida,
“Há problema, moça”?
ouvi mas não disse nada
agarrada ao mastro.
#6
Que problema poderia
haver aqui nesta minha
___ doce procura,
duma cidade assim? mas
deixaste correr as palavras
___ na posição ideal,
e eu deixei deslizar os
pés no soalho nesta
___ amarga tontura,
pois mentir não vale
antes fazer sentir que a
carne nasceu do mal.
Lisboa, 4.6.2004
“AQUILO EU QUERO”, por angela o.
Agosto 20, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
O homem
nu na sua
passagem,
e o olhar
preso ao seu
astro;
aquilo nu
na minha
___ paisagem,
como uma
bandeira no
___ mastro.
#2
Mas aquilo
está todo cru
e tapado,
e a minha
queda dá-se
no vazio;
olho agora o
homem nu e
___ tatuado,
e mexo mexo
o botão rosa
___ macio.
#3
Sinto esta
comunhão de
sensações,
a musica
ali toda
ardente;
a figura
erótica de
___ tentações,
sentida em
qualquer tarde
___ quente.
#4
Esta minha
vida nunca
fendida,
mesmo na
ausência
daquilo;
à atenção
se dá toda
___ perdida,
em qualquer
lugar
___ tranquilo.
#5
Pois possuo
o sinal da
realeza,
um poder
sobre qual-
quer rio;
de ler textos
mudos sem
___ fim,
enquanto
tu gritas eu
___ sorrio.
Lisboa, 24.5.2004
“O CONVITE”, por angela o.
Julho 28, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
Oh! aquela voz
o seu convite
___ de novo,
(para nos
vermos mas
sem estragos;
não que me
repudie o gosto
dos espargos,)
mas prefiro comer
peixe cozido
___ com ovo.
#2
Foram palavras
e mais palavras
___ cheias,
(depois ouvi
aquela pausa
quente e pesada,
que pela linha
veio muito bem
pensada,)
aquela voz
directa e sem
___ peias.
#3
- Repudia-te comer
carne ou comes
___ peixe?,
(e aguardou
a minha
resposta,)
preferes comer
antes bacalhau
em posta?
foi quando me
despertou o luminoso
___ feixe.
#4
O Cupido ou
ele disparou
___ a seta,
(directo ao
coração envolto
em mel,
directo ao
dedo na forma
de anel,)
que sonhei
quando alcançava
___ a meta.
#5
- Quero este
homem para me
___ acordar,
(mesmo na derradeira
cama ou num
pufe vermelho,
sem luz que
cegue ou com
o teu verdelho,)
preciso de tudo
para poder
___ nadar.
#6
Esta é a última
vontade de estar
___ a dois,
(aos meus
namorados antigos
e recentes,
deixo segredos
murmurados
entre dentes,)
ou a quem mais o
quiser descobrir sem
___ atrapalhar.
Lisboa, 6.5.2004
“TEMPO”, por angela o.
Julho 24, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
- Tu fazes
- me um
cafezinho?
( E ele descia
escorrendo
sem norte,
os dedos
pela minha
anca de
mansinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da morte,
do desapare –
cimento ___
ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca à pele).
#2
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele descia
mais escorrendo
sem perdão,
os dedos
pelas coxas
com carinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da solidão,
desses nadas
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca aos pêlos).
#3
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele escorria
Mais descendo
como um dardo,
indo ao mais
fundo do seu
amorzinho),
- olha ___ espera,
es-pe-ra: dizia eu,
- quero falar-te
do fardo,
do que nos consome
a melhor parte de nós
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando aquela
húmida e dura boca).
#4
- E tu Maria
depois fazes
-me um café?
(foi quando senti
o fino sopro da
juventude,
num hálito___
e num passo
dado sem fé),
- José! não esperes;
dizia ___ mas queria
falar-te da plenitude,
do tempo que
não existe no
teu dia-a-dia.
(E tocou-me fundo
ouvindo o meu
grito fino e aberto).
Lisboa, 5.4.2005
“TEU CHEIRO”, por angela o.
Julho 16, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#1
- Oh! o cheiro
a corpo não é
___ negativo,
nem é o meu
desejo de
___ perdição,
ou de uma
queda na
___ paixão,
nem no
deboche
___ vingativo.
#2
- Oh! porquê
esta paixão pelo
___ cheiro,
que p’ra além
do próprio
___ limite,
na posição
passiva de um
___ dinamite,
sou possuída
pelo pensar
___ sem freio.
#3
- Oh! porque sou
vítima desta
___ paixão,
se não é de
todo concu-
___ piscência;
se o que sinto
é prazer na
___ violação,
da transgressão
interdita da
___ paciência.
Lisboa, 6.4.2004
“A UNIÃO DA CARNE ” – parte3, por angela o.
Julho 9, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#13
O corpo esta carne
___ só a escuto
como maria,
(que caiu na
“santidade original”
ao despertar ),
numa lógica
de partilha
na vertigem
___ fria,
(em que o sentir
umbilical é fardo
___ tumular!).
(Que significa “união erótica” a cirandar:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#14
O teu corpo esta carne
___ só a escuto
quando sitiada,
(tal como uma
virgem aos gritos
perdida ),
numa lógica
viscosa ao ser
___ desejada,
(em que tudo olhavas
mesmo não estando
___ colhida!).
(Que é ser mulher- criança:
”senão dar gritos delirantes cheios de ardor
senão mesmo um tempo
___ em vez de um calor em mim”).
#15
O corpo esta carne
___ só a escuto
enquanto tremia,
(porque caiu na
“santidade animal”
de tudo abdicar ),
numa lógica de verdade
física que tudo
___ pressentia,
(quando deixava de
ser eu mas outra a
___ transbordar !).
(Que significa “união canibal” a vagabundear:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#16
O teu corpo essa carne
___ só a escuto quando
destravada,
(tal como a
mulher frívola a
cair desfeita),
numa lógica
submissa em tudo
___ desvairada,
(em que tu me olhavas
como uma mulher
___ eleita!).
(Amo-vos mulheres-esfinge:
”pois espia o tempo e este não é senão um calor
___ em vez de um ardor em mim”).
#17
O corpo esta carne
___ só a escuto
quando se alumia,
(porque caiu na
“santidade primordial”
da pessoa vulgar),
numa lógica de
pureza que tudo
___ repudia,
(mesmo na grinalda
votiva que te desafia
___ o olhar!).
(Que significa “união bestial” no limiar:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#18
O corpo a minha carne
___ só a escuto
quando enfeitiçada,
(tal como a
“santa passiva” na
sua mortificação),
numa lógica
de fractura toda
___ escancarada,
(numa crise
convulsiva até à
visão da salvação!).
(Pois andar cheia de frenesi comicial:
ӎ ter este calor todo como pudor ___
senão mesmo um ardor ou tremor ___
em vez de um tempo ou desgramento em mim”).
Lisboa, 14.06.05
“ESTOU PERTO ”- parte 2, por angela o.
Julho 6, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#6
Gosto de o
dizer que
“estou perto”,
para que ele
se aproxime
___ mais atento,
para perto de
mim sentir o
___ momento,
e rondar cada
vez mais o
___ amor aberto.
(Se eu “estou perto”
que não seja
___ tudo já).
#7
Gosto de fazer
o cerco de
fronte aflita,
para estar perto
da pessoa
___ amada,
para perto dele
___ sentir-me
aprisionada,
mesmo que
___ o momento
não se repita.
(Se eu “estou perto”
que não seja
___ tudo já).
#8
Gosto de
dar-me a essa
proximidade,
que quase nos
queima e o tempo
___ poisa,
como quando
mostrou cá
___ uma coisa,
e podermos
___ partilhar
a intimidade.
(Estou perto
sim! imundo
___ osso!)
#9
Gosto de
sentir o medo
da combustão,
quando começo
a subir a sua
___ escada,
para às vezes
dali sair toda
___ chamuscada,
com tanto calor
a acelerar-me
___ o coração.
(Estou quase
sim! obsceno
___ osso!)
#10
Como gosto
de o voltar
a conhecer,
muito embora
___estranhe
a coisa dele,
quando no doido
___ Verão passado
com ele,
o calor incendiou
de vez e fez-me
chorar e tremer.
(Se “estive lá”
que não seja ___
a última vez!)
Lisboa, 14.02.05
“SILÊNCIO ABSOLUTO” – parte2, angela o.
Julho 4, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#8
o silêncio não é absoluto a
alguém que apetece falar
___ de infernos,
ou quando apetece
muito encontrar
___ alguém,
ou atravessar em
vigília o sono que
___ não vem,
convidado por alguém
para os sonhos
___ eternos.
#9
o silêncio não é absoluto
pois aparece muito claro como
___ a língua,
pois na intersecção está
a língua na língua
___ arrancada,
na desocultação da
língua a minha língua
___ trancada,
naquela língua
transparente da impostura
___ da língua.
#10
o silêncio já é absoluto na
memória que está algures
___ na língua,
quando subo o
primeiro lanço
___ da escada,
ou sinto a nostalgia
infinita da língua
___ arrancada,
neste círculo de
sofrimento da
___ minha língua.
#11
o silêncio já não é absoluto
porque não aparece claro
___ como a língua,
quando subo os teus
degraus e toco à
___ tua porta,
ou se nasceu do
sangue e não está
___ morta,
por ser sombra doente
e nome na minha
___ língua.
#12
o silêncio absoluto é memória
que está comigo algures
___ na porta,
quando a minha justiça
toca as chamas da tua
___ entrada,
ou torna-se maldição
contigo algures na
___ estrada,
como uma pele
invisível tocada que
___ se corta.
#13
o silêncio são os teus
gestos todos que me fizeram
___ pedra,
ou quase todos
nesta porosidade
___ desejada,
tal membrana polida
na necessidade de ser
___ amada,
no esquecimento de
quem se acha ainda
___ Fedra.
#14
o absoluto é desejo de
viver apaixonada e a
___ envelhecer,
em gritos finos e
longos pregada à
___ cruz,
que sempre interessa
tocar no exterior
___ da luz,
e sentir tu entrares e saíres
em toda a parte sem nunca
___ estremecer.
Lisboa, 24.9.2004
“RAÍZES HÚMIDAS” – parte 1, por angela o.
Julho 3, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
Colher!
___ foi a
primeira
palavra,
desta
colheita
que me
espera;
___ pois
me reflue
na cabeça
esta lavra,
de colher
talos na
Primavera.
#2
A palavra
___ colher
é sempre
da mulher,
é como a
beleza nua
do acto na
paisagem;
___ pois o
jardim cantou
e eu seguro
na colher,
mesmo
depois de
abrir o saco
da bagagem.
#3
Esta ___
aventura
reflue agora
junto à fonte,
e tudo são
dádivas
oferecidas
ao amor;
___ pois ao
acto de colher
chamo ceifar
no monte,
longe do olhar
dos deuses
cheios de
temor.
#4
Ouço ___
os teus gritos
neste nosso
silêncio,
enquanto
ainda
não te
falo,
observo ___
o barco
num mar
em vagas;
___ pois
invento o
acto de colher
o duro talo,
(Enquanto
apanho todas
as uvas e
bagas).
Lisboa, 2.09.2004.









