Lembrança de Artemisa Coimbra.

 

#1

- Assim pensava eu: “Ah! sim,

eu amo o meu namorado” e toda

a rapariga merece conhecer a dor

na flor dos anos – “c’est tout !”.

 

___mas tudo começou

um dia inespera-

damente,

 

para que a incrédula

angelina conhecesse

o seu choro;

 

todos se interrogavam

quem seria

aquele doente,

 

aquela forma

insegura de choro

nas mãos do mouro.

 

(- “Maridinho! Sabias que há

rapazes desequilibrados,

gente que usa e abusa da

condição física e até mata.)

 

 

#2

- Assim pensava eu: “Ah! sim,

eu amo o meu marido” e toda a

esposa merece conhecer a dor

na flor dos anos – “c’est tout !”.

 

___ mas inesperada-

mente da janela

subia aquele choro,

 

vindo do pátio

do lado sem luz

pois anoitecia;

 

do quarto se ouvia

a violência no ar

do silvo a couro,

 

a deselegância

do som que a todos

nos oprimia.

 

(- “Maridinho! Porque há

demasiados homens que

maltratam as esposas,

até na presença dos filhos?”).

 

 

#3

- Assim pensava eu: “Ah! sim,

eu amo o meu amante” e toda a

mulher merece conhecer a dor

na flor dos anos – “c’est tout !”.

 

___ mas não

era a primeira vez

confessou-me Angelina,

 

nem a segunda

ou seguramente

a última vez,

 

(que aquele som

 vinha de dentro num

choro de menina);

 

choro que  ia

subindo em violência

sobre a minha tez.

 

 (- “Maridinho! Sabias que há

amantes, gente de mau carácter

que usa e abusa da condição

física e que finalmente mata.)

 

 

#4

- Assim pensava eu: “Não!,

eu amo o meu namorado”

 e se tenho de sofrer tudo

– Meu Deus que não seja tudo já!)

 

___ era a violência

de dentro dos homens

como lama impura,

 

vindo do fundo

sem decoro que

não passa,

 

que nos fala

connosco como

nódoa escura,

 

na voz de ninguém

vindo da janela

sem vidraça.

 

(- “Maridinho! Sabias que

há namoradas  que morrem

porque tiveram o azar de

dormir com outros rapazes?

 

 

#5

- Assim pensava eu: “Sim!,

eu amo o meu marido” e se

tenho de sofrer tudo esta noite

– Meu Deus que seja tudo já!)

 

___ um silvo apenas

no ar horrível

como de um cinto,

 

som instalado nos

muitos silêncios

do pátio perdido,

 

sem crianças ou

televisões só o seu

choro contido,

 

estranho o silêncio

nocturno horrível

que tudo sinto.

 

(- “Esposo! Sabias que há

quem morra em Portugal

porque teve o azar de casar

ou dormir com o inimigo?)

 

 

Lisboa, 15.11.04

 

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Lembrança de Maria Teresa Horta

#1

Numa discussão política

nunca se descobre

___ a verdade,

 

mesmo se ditas em

silêncio as  palavras

___ estremecem,

 

que ninguém te

convide se for por

___ vaidade,

 

a sentares à mesa

e depois te dizerem que

te conhecem.

 

 

#2

Qualquer discussão à mesa

pode ser um amargo

___ castigo,

 

mesmo entre amantes

que se conhecem com

___ alguma calma,

 

até podem ser muito

jovens e só mostrarem

___ o umbigo,

 

que desperdício discutir

política à mesa sem

fulgor ou alma.

 

 

#3

Lembras-te quando

te descobri numa longínqua

___ recordação,

 

aquele teu marco o 1º de Maio

na Alameda que te

___ maravilhou,

 

(que por mim foi escolhida

por a teres vivido com intensa

___ emoção),

 

pois quando se é jovem

todo e qualquer

jardim cantou!

 

 

#4

Mas preferiste terminar

a noite numa conversa

___ dispersa,

 

quando a política começou

na muda das minhas

___ doces luas,

 

na Casa do Alentejo

naquele primeiro andar

___ onde a conversa,

 

sobre o sobrado decadente

embriagou-nos de todas

as praias nuas.

 

 

#5

“Rouca doçura a

desta onda de espuma”

– ouviste-me contida,

 

fechei os olhos e agarrei

com torpor a coluna de

___ alabastro,

 

convidaste para sairmos

pois estava toda tremula e

___ sentida,

 

“Há problema, moça”?

ouvi mas não disse nada 

agarrada ao mastro.

 

 

#6

Que problema poderia

haver aqui nesta minha

___ doce procura,

 

duma cidade assim? mas

deixaste correr as palavras  

___ na posição ideal,

 

e eu deixei deslizar os  

pés no soalho nesta

___ amarga tontura,

 

pois mentir não vale 

antes fazer sentir que a

carne nasceu do mal.

 

Lisboa, 4.6.2004

Lembrança de Adélia Lopes

#1

O homem

nu na sua

passagem,

 

e o olhar

preso ao seu

astro;

 

aquilo nu

na minha

___ paisagem,

 

como uma

bandeira no

___ mastro.

 

 

#2

Mas aquilo

está todo cru

e tapado,

 

e a minha

queda dá-se

no vazio;

 

olho agora o

homem nu e

___ tatuado,

 

e mexo mexo

o botão rosa

___ macio.

 

 

#3

Sinto esta

comunhão de

sensações,

 

a musica

ali toda

ardente;

 

a figura

erótica de

___ tentações,

 

sentida em

qualquer tarde

___ quente.

 

 

#4

Esta minha

vida nunca

fendida,

 

mesmo na

ausência

daquilo;

 

à atenção

se dá toda

___ perdida,

 

em qualquer

lugar

___ tranquilo.

 

 

#5

Pois possuo

o sinal da

realeza,

 

um poder

sobre qual-

quer rio;

 

de ler textos

mudos sem

___ fim,

 

enquanto

tu gritas eu

___ sorrio.

 

 

Lisboa, 24.5.2004

 

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

#1

Oh! aquela voz

o seu convite

___ de novo,

 

(para nos

vermos mas

sem estragos;

 

não que me

repudie o gosto

dos espargos,)

 

mas prefiro comer

peixe cozido

___ com ovo.

 

 

#2

Foram palavras

e mais palavras

___ cheias,

 

(depois ouvi

aquela pausa

quente e pesada,

 

que pela linha

veio muito bem

pensada,)

 

aquela voz

directa e sem

___ peias.

 

 

#3

- Repudia-te comer

carne ou comes

___ peixe?,

 

(e aguardou

a minha

resposta,)

 

preferes comer

antes bacalhau

em posta?

 

foi quando me

despertou o luminoso

___ feixe.

 

 

#4

O Cupido ou

ele disparou

___ a seta,

 

(directo ao

coração envolto

em mel,

 

directo ao

dedo na forma

de anel,)

 

que sonhei

quando alcançava

___ a meta.

 

 

#5

- Quero este

homem para me

___ acordar,

 

(mesmo na derradeira

cama ou num

pufe vermelho,

 

sem luz que

cegue ou com

o teu verdelho,)

 

preciso de tudo

para poder

___ nadar.

                                                  

 

#6

Esta é a última

vontade de estar

___ a dois,

 

(aos meus

namorados antigos

e recentes,

 

deixo segredos

murmurados

entre dentes,)

 

ou a quem mais o

quiser descobrir sem

___ atrapalhar.

 

 

Lisboa, 6.5.2004

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

#1

- Tu fazes

- me um

cafezinho?

 

( E ele descia 

escorrendo

sem norte,

 

os dedos

pela minha

anca de

mansinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da morte,

 

do desapare –

cimento ___

ouves José!

 

(E apalpava-me, 

encostando a

boca à pele).

 

 

#2

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele descia

mais escorrendo

sem perdão,

 

os dedos

pelas coxas

com carinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da solidão,

 

desses nadas

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando a

boca aos pêlos).

 

 

#3

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele escorria

Mais descendo

como um dardo,

 

indo ao mais

fundo do seu

amorzinho),

 

- olha ___ espera,

es-pe-ra: dizia eu,

- quero falar-te

do fardo,

 

do que nos consome

a melhor parte de nós 

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando aquela

húmida e dura boca).

 

 

#4

- E tu Maria

depois fazes

-me um café?

 

(foi quando senti

o fino sopro da

juventude,

 

num hálito___

e num passo

dado sem fé),

 

 - José! não esperes;

dizia ___ mas queria

falar-te da plenitude,

 

do tempo que

não existe no

teu dia-a-dia.

 

(E tocou-me fundo

ouvindo o meu

 grito fino e aberto).

 

Lisboa, 5.4.2005

 

 

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

 

#1

- Oh! o cheiro

a corpo não é

___ negativo,

 

nem é o meu

desejo de

___ perdição,

 

ou de uma

queda na

___ paixão,

 

nem no

deboche

___ vingativo.

 

 

#2

- Oh! porquê

esta paixão pelo

___ cheiro,

 

que p’ra além

do próprio

___ limite,

 

na posição

passiva de um

___ dinamite,

 

sou possuída

pelo pensar 

___ sem freio.

 

 

#3

- Oh! porque sou

vítima desta

___ paixão,

 

se não é de

todo concu-

___ piscência;

 

se o que sinto 

é prazer na

___ violação,

 

da transgressão

interdita da 

___ paciência.

 

 

Lisboa, 6.4.2004

 

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

 

#13

O corpo esta carne

___ só a escuto

como maria,

 

(que caiu na

“santidade original”

ao despertar ),

 

numa lógica

de partilha

na vertigem

___ fria,

 

(em que o sentir

umbilical é fardo

___ tumular!).

 

(Que significa “união erótica” a cirandar:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___ e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#14

O teu corpo esta carne

___ só a escuto

quando sitiada,

 

(tal como uma

virgem aos gritos

perdida ),

 

numa lógica

viscosa ao ser

___ desejada,

 

(em que tudo olhavas

mesmo não estando

___ colhida!).

 

(Que é ser mulher- criança:

”senão dar gritos delirantes cheios de ardor

senão mesmo um tempo

___ em vez de um calor em mim”).

 

 

 

#15

O corpo esta carne

___ só a escuto

enquanto tremia,

 

(porque caiu na

“santidade animal”

de tudo abdicar ),

 

numa lógica de verdade

física que tudo

___ pressentia,

 

(quando deixava de

ser eu mas outra a

___ transbordar !).

 

(Que significa “união canibal” a vagabundear:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___  e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#16

O teu corpo essa carne

___ só a escuto quando

destravada,

 

(tal como a

mulher frívola a

cair desfeita),

 

numa lógica

submissa em tudo

___ desvairada,

 

(em que tu me olhavas

como uma mulher

___ eleita!).

 

(Amo-vos mulheres-esfinge:

”pois espia o tempo e este não é senão um calor

___  em vez de um ardor em mim”).

 

 

 

#17

O corpo esta carne

___ só a escuto

quando se alumia,

 

(porque caiu na

“santidade primordial”

da pessoa vulgar),

 

numa lógica de

pureza que tudo

___ repudia,

 

(mesmo na grinalda

votiva que te desafia

___ o olhar!).

 

(Que significa “união bestial” no limiar:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___ e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#18

O corpo a minha carne

___ só a escuto

quando enfeitiçada,

 

(tal como a

“santa passiva” na

sua mortificação),

 

numa lógica

de fractura toda

___ escancarada,

 

(numa crise

convulsiva até à

visão da salvação!).

 

(Pois andar cheia de frenesi comicial:  

ӎ ter este calor todo como pudor ___

senão mesmo um ardor  ou  tremor ___

em vez de um tempo ou desgramento em mim”).

 

 

Lisboa, 14.06.05

 

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

#6

Gosto de o

dizer que

“estou perto”,

 

para que ele

se aproxime

___ mais atento,

 

para perto de

mim sentir o

___ momento,

 

e rondar cada

vez mais o

___ amor aberto.

 

(Se eu “estou perto”

que não seja

___ tudo já).

 

 

#7

Gosto de fazer

o cerco de

fronte aflita,

 

para estar perto

da pessoa

___ amada,

 

para perto dele

___ sentir-me

aprisionada,

 

mesmo que

___ o momento

não se repita.

 

(Se eu “estou perto”

que não seja

___ tudo já).

 

 

#8

Gosto de

dar-me a essa

proximidade,

 

que quase nos

queima e o tempo

___ poisa,

 

como quando

mostrou cá

___ uma coisa,

 

e podermos

___ partilhar 

a intimidade.

 

(Estou perto

sim!  imundo

___ osso!)

 

 

#9

Gosto de

sentir o medo

da combustão,

 

quando começo

a subir a sua

___ escada,

 

para às vezes

dali sair toda

___ chamuscada,

 

com tanto calor

a acelerar-me

___ o coração.

 

(Estou quase

sim! obsceno

___ osso!)

 

 

#10

Como gosto

de o voltar

a conhecer,

 

muito embora

___estranhe

a coisa dele,

 

quando no doido

___ Verão passado

com ele,

 

o calor incendiou

de vez e fez-me

chorar e tremer.

 

(Se “estive lá”

que não seja ___

a última vez!)

 

 

Lisboa, 14.02.05

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#8

o silêncio não é absoluto a

alguém que apetece falar

___ de infernos,

 

ou quando apetece

muito encontrar

___ alguém,

 

ou atravessar em

vigília o sono que

___ não vem,

 

convidado por alguém

para os sonhos

___ eternos.

 

 

#9

o silêncio não é absoluto

pois aparece muito claro como

___ a língua,

 

pois na intersecção está  

a língua na língua

___ arrancada,

 

na desocultação da

língua a minha língua

___ trancada,

 

naquela língua

transparente da impostura

___ da língua.

 

 

#10

o silêncio já é absoluto na

memória que está algures

___ na língua,

 

quando subo o

primeiro lanço

___ da escada,

 

ou sinto a nostalgia

infinita da língua

___ arrancada,

 

neste círculo de

sofrimento da

___ minha língua.

 

 

#11

o silêncio já não é absoluto

porque não aparece claro

___ como a língua,

 

quando subo os teus

degraus e toco à  

___  tua porta,

 

ou se nasceu do

sangue e não está

___ morta,

 

por ser sombra doente

e nome na minha

___ língua.

 

 

#12

o silêncio absoluto é memória

que está comigo algures

___ na porta,

 

quando a minha justiça

toca as chamas da tua

___ entrada,

 

ou torna-se maldição

contigo algures na

___ estrada,

 

como uma pele

invisível tocada que

___ se corta.

 

 

#13

o silêncio são os teus

gestos todos que me fizeram

___ pedra,

 

ou quase todos

nesta porosidade 

___ desejada,

 

tal membrana polida  

na necessidade de ser

___ amada,

 

no esquecimento de

quem se acha ainda

___ Fedra.

 

 

#14

o absoluto é desejo de

viver apaixonada e a

___ envelhecer,

 

em gritos finos e

longos pregada à

___ cruz,

 

que sempre interessa

tocar no exterior

___ da luz,

 

e sentir tu entrares e saíres

em toda a parte sem nunca

___ estremecer.

 

 

Lisboa, 24.9.2004

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

Colher!

___ foi a

primeira

palavra,

 

desta

colheita

que me

espera;

 

___ pois

me reflue

na cabeça

esta lavra,

 

de colher

talos na

Primavera.

 

 

#2

A palavra

___ colher

é sempre 

da mulher,

 

é como a

beleza nua

do acto na

paisagem;

 

___ pois o

jardim cantou

e eu seguro

na colher,

 

mesmo

depois de

abrir o saco

da bagagem.

 

 

#3

Esta ___

aventura

reflue agora

junto à fonte,

 

e tudo são

dádivas

oferecidas

ao amor;

 

___ pois ao

acto de colher

chamo ceifar

no monte,

 

longe do olhar

dos deuses

cheios de

temor.

 

 

#4

Ouço ___

os teus gritos

neste nosso

silêncio,

 

enquanto

ainda

não te

falo,

 

observo ___

o barco

num mar

em vagas;

 

___ pois  

invento o

acto de colher

o duro talo,

 

(Enquanto

apanho todas

as uvas e

bagas).

 

 

Lisboa, 2.09.2004.