\”burning up\”

 

Lembrança de Madonna

 

 

#1

Sou um

pouco como a

libélula cativa,

 

— que vive

apenas uma

escassa hora;

 

todo o tempo

do mundo

ando fugitiva,

 

entre a alma

do poente e a

calma aurora.

 

 

#2

Aos primeiros

raios de sol nasço

cheia de beleza,

 

— e ao cair

da noite morro

toda humilhada;

 

não acredito que

este mundo é

lugar de tristeza,

 

embora me

extingue como

todas elas dobrada.

 

 

#3

Sou longeva

algumas vezes

outras inquieta,

 

— mas é no terror

das sombras que

lanço-me escondida:

 

em direcção aos

candeeiros embora 

sempre secreta,

 

como às labaredas

das fogueiras quando

não correspondida.

 

 

#4

São as labaredas

ardentes que

atraem-me,

 

— como quando

salto para uns

fortes braços;

 

fortes da vida

em que tudo de

mim saem-me,

 

perdendo-me

depois nas sombras

dos espaços.

 

 

#5

Também eu

tenho muitos

segredos dolorosos,

 

— pois acredito

que havendo luz

há vida e claridade;

 

sou atraída por

todos os esplendores

misteriosos:

 

como o riso dos

faunos ou o seu

olhar de liberdade.

 

 

#6

Sou atraída pelo

som de todos os

clarins desejados:

 

— tanto no mar

como na terra

gosto de ser amada;

 

são instantes

assombrosos que

ficam gravados,

 

se o sol me

ilumina deixando-me

arrebatada.

 

 

#7

Sou atraída por

todos os assombros

da paixão,

 

— pela romã cortada

ao meio com o

seu grito puro;

 

também pelo

cheiro acre daquilo

que me dão:

 

se a tua voz for

sem limites quando

em ti procuro.

 

 

Lisboa, 7.9.2004

 

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