Lembrança de Maria Teresa Horta

#1

Numa discussão política

nunca se descobre

___ a verdade,

 

mesmo se ditas em

silêncio as  palavras

___ estremecem,

 

que ninguém te

convide se for por

___ vaidade,

 

a sentares à mesa

e depois te dizerem que

te conhecem.

 

 

#2

Qualquer discussão à mesa

pode ser um amargo

___ castigo,

 

mesmo entre amantes

que se conhecem com

___ alguma calma,

 

até podem ser muito

jovens e só mostrarem

___ o umbigo,

 

que desperdício discutir

política à mesa sem

fulgor ou alma.

 

 

#3

Lembras-te quando

te descobri numa longínqua

___ recordação,

 

aquele teu marco o 1º de Maio

na Alameda que te

___ maravilhou,

 

(que por mim foi escolhida

por a teres vivido com intensa

___ emoção),

 

pois quando se é jovem

todo e qualquer

jardim cantou!

 

 

#4

Mas preferiste terminar

a noite numa conversa

___ dispersa,

 

quando a política começou

na muda das minhas

___ doces luas,

 

na Casa do Alentejo

naquele primeiro andar

___ onde a conversa,

 

sobre o sobrado decadente

embriagou-nos de todas

as praias nuas.

 

 

#5

“Rouca doçura a

desta onda de espuma”

– ouviste-me contida,

 

fechei os olhos e agarrei

com torpor a coluna de

___ alabastro,

 

convidaste para sairmos

pois estava toda tremula e

___ sentida,

 

“Há problema, moça”?

ouvi mas não disse nada 

agarrada ao mastro.

 

 

#6

Que problema poderia

haver aqui nesta minha

___ doce procura,

 

duma cidade assim? mas

deixaste correr as palavras  

___ na posição ideal,

 

e eu deixei deslizar os  

pés no soalho nesta

___ amarga tontura,

 

pois mentir não vale 

antes fazer sentir que a

carne nasceu do mal.

 

Lisboa, 4.6.2004

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