Lembrança de Adélia Lopes

#1

Oh! aquela voz

o seu convite

___ de novo,

 

(para nos

vermos mas

sem estragos;

 

não que me

repudie o gosto

dos espargos,)

 

mas prefiro comer

peixe cozido

___ com ovo.

 

 

#2

Foram palavras

e mais palavras

___ cheias,

 

(depois ouvi

aquela pausa

quente e pesada,

 

que pela linha

veio muito bem

pensada,)

 

aquela voz

directa e sem

___ peias.

 

 

#3

- Repudia-te comer

carne ou comes

___ peixe?,

 

(e aguardou

a minha

resposta,)

 

preferes comer

antes bacalhau

em posta?

 

foi quando me

despertou o luminoso

___ feixe.

 

 

#4

O Cupido ou

ele disparou

___ a seta,

 

(directo ao

coração envolto

em mel,

 

directo ao

dedo na forma

de anel,)

 

que sonhei

quando alcançava

___ a meta.

 

 

#5

- Quero este

homem para me

___ acordar,

 

(mesmo na derradeira

cama ou num

pufe vermelho,

 

sem luz que

cegue ou com

o teu verdelho,)

 

preciso de tudo

para poder

___ nadar.

                                                  

 

#6

Esta é a última

vontade de estar

___ a dois,

 

(aos meus

namorados antigos

e recentes,

 

deixo segredos

murmurados

entre dentes,)

 

ou a quem mais o

quiser descobrir sem

___ atrapalhar.

 

 

Lisboa, 6.5.2004

 

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

#1

- Tu fazes

- me um

cafezinho?

 

( E ele descia 

escorrendo

sem norte,

 

os dedos

pela minha

anca de

mansinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da morte,

 

do desapare –

cimento ___

ouves José!

 

(E apalpava-me, 

encostando a

boca à pele).

 

 

#2

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele descia

mais escorrendo

sem perdão,

 

os dedos

pelas coxas

com carinho),

 

- olha ___ espera:

dizia ___ quero

falar-te da solidão,

 

desses nadas

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando a

boca aos pêlos).

 

 

#3

- Tu fazes

-me um

cafezinho?

 

(E ele escorria

Mais descendo

como um dardo,

 

indo ao mais

fundo do seu

amorzinho),

 

- olha ___ espera,

es-pe-ra: dizia eu,

- quero falar-te

do fardo,

 

do que nos consome

a melhor parte de nós 

___ ouves José!

 

(E apalpava-me,

encostando aquela

húmida e dura boca).

 

 

#4

- E tu Maria

depois fazes

-me um café?

 

(foi quando senti

o fino sopro da

juventude,

 

num hálito___

e num passo

dado sem fé),

 

 - José! não esperes;

dizia ___ mas queria

falar-te da plenitude,

 

do tempo que

não existe no

teu dia-a-dia.

 

(E tocou-me fundo

ouvindo o meu

 grito fino e aberto).

 

Lisboa, 5.4.2005

 

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#5

De costas ___

ou de frente

sou mesmo

desejada,

 

numa

escrita

fina e

englobante;

 

___ pois  

vivo agora 

despida e

apaixonada,

 

permitindo

toda a

leitura

arrazante.

 

 

#6

Morro ___

agora no

exterior

da luz,

 

vendo o

cavalo

avançar

para ela;

 

___pois

sem estar

pregada

à cruz,

 

tenho uma

visão

brilhante

e bela.

 

 

#7

Iluminar ___

ou revelar

que sou

potente,

 

sentir

que tenho

testa de

pedra;

 

___pois

analisar o

fluxo eléctrico

na mente,

 

é não recuar

perante

a tortuosa

Fedra.

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

 

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

 

#1

- Oh! o cheiro

a corpo não é

___ negativo,

 

nem é o meu

desejo de

___ perdição,

 

ou de uma

queda na

___ paixão,

 

nem no

deboche

___ vingativo.

 

 

#2

- Oh! porquê

esta paixão pelo

___ cheiro,

 

que p’ra além

do próprio

___ limite,

 

na posição

passiva de um

___ dinamite,

 

sou possuída

pelo pensar 

___ sem freio.

 

 

#3

- Oh! porque sou

vítima desta

___ paixão,

 

se não é de

todo concu-

___ piscência;

 

se o que sinto 

é prazer na

___ violação,

 

da transgressão

interdita da 

___ paciência.

 

 

Lisboa, 6.4.2004

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#5

A memória está

comigo agora

___ na porta,

 

quando a justiça

toca as chamas

da entrada;

 

a maldição

está connosco

nesta estrada,

 

como a pele invisível

tocada que se

___ corta.

 

 

#6

Os gestos todos

que fiz e me fizeram

___ pedra,

 

ou quase todos 

nesta porosidade

desejada,

 

são como a membrana

da necessidade

mais amada,

 

um esquecimento

progressivo de que fui

___ Fedra.

 

 

#7

Agora desejo viver

apaixonada e a

___ envelhecer,

 

em gritos finos e

longos pregada a

esta cruz,

 

pois o que interessa

é tocar no exterior

da luz,

 

ou entrar em toda

a parte sem

___ estremecer.

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

 

#13

O corpo esta carne

___ só a escuto

como maria,

 

(que caiu na

“santidade original”

ao despertar ),

 

numa lógica

de partilha

na vertigem

___ fria,

 

(em que o sentir

umbilical é fardo

___ tumular!).

 

(Que significa “união erótica” a cirandar:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___ e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#14

O teu corpo esta carne

___ só a escuto

quando sitiada,

 

(tal como uma

virgem aos gritos

perdida ),

 

numa lógica

viscosa ao ser

___ desejada,

 

(em que tudo olhavas

mesmo não estando

___ colhida!).

 

(Que é ser mulher- criança:

”senão dar gritos delirantes cheios de ardor

senão mesmo um tempo

___ em vez de um calor em mim”).

 

 

 

#15

O corpo esta carne

___ só a escuto

enquanto tremia,

 

(porque caiu na

“santidade animal”

de tudo abdicar ),

 

numa lógica de verdade

física que tudo

___ pressentia,

 

(quando deixava de

ser eu mas outra a

___ transbordar !).

 

(Que significa “união canibal” a vagabundear:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___  e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#16

O teu corpo essa carne

___ só a escuto quando

destravada,

 

(tal como a

mulher frívola a

cair desfeita),

 

numa lógica

submissa em tudo

___ desvairada,

 

(em que tu me olhavas

como uma mulher

___ eleita!).

 

(Amo-vos mulheres-esfinge:

”pois espia o tempo e este não é senão um calor

___  em vez de um ardor em mim”).

 

 

 

#17

O corpo esta carne

___ só a escuto

quando se alumia,

 

(porque caiu na

“santidade primordial”

da pessoa vulgar),

 

numa lógica de

pureza que tudo

___ repudia,

 

(mesmo na grinalda

votiva que te desafia

___ o olhar!).

 

(Que significa “união bestial” no limiar:

”se a mulher é feita para ser encontrada

___ e o homem para a encontrar”).

 

 

 

#18

O corpo a minha carne

___ só a escuto

quando enfeitiçada,

 

(tal como a

“santa passiva” na

sua mortificação),

 

numa lógica

de fractura toda

___ escancarada,

 

(numa crise

convulsiva até à

visão da salvação!).

 

(Pois andar cheia de frenesi comicial:  

ӎ ter este calor todo como pudor ___

senão mesmo um ardor  ou  tremor ___

em vez de um tempo ou desgramento em mim”).

 

 

Lisboa, 14.06.05

 

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

#6

Gosto de o

dizer que

“estou perto”,

 

para que ele

se aproxime

___ mais atento,

 

para perto de

mim sentir o

___ momento,

 

e rondar cada

vez mais o

___ amor aberto.

 

(Se eu “estou perto”

que não seja

___ tudo já).

 

 

#7

Gosto de fazer

o cerco de

fronte aflita,

 

para estar perto

da pessoa

___ amada,

 

para perto dele

___ sentir-me

aprisionada,

 

mesmo que

___ o momento

não se repita.

 

(Se eu “estou perto”

que não seja

___ tudo já).

 

 

#8

Gosto de

dar-me a essa

proximidade,

 

que quase nos

queima e o tempo

___ poisa,

 

como quando

mostrou cá

___ uma coisa,

 

e podermos

___ partilhar 

a intimidade.

 

(Estou perto

sim!  imundo

___ osso!)

 

 

#9

Gosto de

sentir o medo

da combustão,

 

quando começo

a subir a sua

___ escada,

 

para às vezes

dali sair toda

___ chamuscada,

 

com tanto calor

a acelerar-me

___ o coração.

 

(Estou quase

sim! obsceno

___ osso!)

 

 

#10

Como gosto

de o voltar

a conhecer,

 

muito embora

___estranhe

a coisa dele,

 

quando no doido

___ Verão passado

com ele,

 

o calor incendiou

de vez e fez-me

chorar e tremer.

 

(Se “estive lá”

que não seja ___

a última vez!)

 

 

Lisboa, 14.02.05

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#8

o silêncio não é absoluto a

alguém que apetece falar

___ de infernos,

 

ou quando apetece

muito encontrar

___ alguém,

 

ou atravessar em

vigília o sono que

___ não vem,

 

convidado por alguém

para os sonhos

___ eternos.

 

 

#9

o silêncio não é absoluto

pois aparece muito claro como

___ a língua,

 

pois na intersecção está  

a língua na língua

___ arrancada,

 

na desocultação da

língua a minha língua

___ trancada,

 

naquela língua

transparente da impostura

___ da língua.

 

 

#10

o silêncio já é absoluto na

memória que está algures

___ na língua,

 

quando subo o

primeiro lanço

___ da escada,

 

ou sinto a nostalgia

infinita da língua

___ arrancada,

 

neste círculo de

sofrimento da

___ minha língua.

 

 

#11

o silêncio já não é absoluto

porque não aparece claro

___ como a língua,

 

quando subo os teus

degraus e toco à  

___  tua porta,

 

ou se nasceu do

sangue e não está

___ morta,

 

por ser sombra doente

e nome na minha

___ língua.

 

 

#12

o silêncio absoluto é memória

que está comigo algures

___ na porta,

 

quando a minha justiça

toca as chamas da tua

___ entrada,

 

ou torna-se maldição

contigo algures na

___ estrada,

 

como uma pele

invisível tocada que

___ se corta.

 

 

#13

o silêncio são os teus

gestos todos que me fizeram

___ pedra,

 

ou quase todos

nesta porosidade 

___ desejada,

 

tal membrana polida  

na necessidade de ser

___ amada,

 

no esquecimento de

quem se acha ainda

___ Fedra.

 

 

#14

o absoluto é desejo de

viver apaixonada e a

___ envelhecer,

 

em gritos finos e

longos pregada à

___ cruz,

 

que sempre interessa

tocar no exterior

___ da luz,

 

e sentir tu entrares e saíres

em toda a parte sem nunca

___ estremecer.

 

 

Lisboa, 24.9.2004

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

Colher!

___ foi a

primeira

palavra,

 

desta

colheita

que me

espera;

 

___ pois

me reflue

na cabeça

esta lavra,

 

de colher

talos na

Primavera.

 

 

#2

A palavra

___ colher

é sempre 

da mulher,

 

é como a

beleza nua

do acto na

paisagem;

 

___ pois o

jardim cantou

e eu seguro

na colher,

 

mesmo

depois de

abrir o saco

da bagagem.

 

 

#3

Esta ___

aventura

reflue agora

junto à fonte,

 

e tudo são

dádivas

oferecidas

ao amor;

 

___ pois ao

acto de colher

chamo ceifar

no monte,

 

longe do olhar

dos deuses

cheios de

temor.

 

 

#4

Ouço ___

os teus gritos

neste nosso

silêncio,

 

enquanto

ainda

não te

falo,

 

observo ___

o barco

num mar

em vagas;

 

___ pois  

invento o

acto de colher

o duro talo,

 

(Enquanto

apanho todas

as uvas e

bagas).

 

 

Lisboa, 2.09.2004.

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

A ninguém me

apetece falar

___de infernos,

 

mas apetece

encontrar-me

com alguém,

 

atravessar em

vigília o sono

que não vem,

 

convidado por

alguém em sonhos

___ eternos,

 

 

#2

Mas sempre

aparece é claro

___ a língua,

 

a intersecção da

língua na língua

arrancada,

 

a desocultação

da língua na

língua trancada,

 

aquela língua

transparente na impostura 

___ da língua.

 

 

#3

A memória está

comigo agora

___ na língua,

 

quando subo

o primeiro lanço

da escada;

 

é nostalgia

infinita da língua

arrancada,

 

neste círculo

de sofrimento

___da língua.

 

 

#4

Mas nunca

aparece é claro

___ a língua,

 

quando se sobe

os degraus e

toca-se à porta,

 

do que nasce

do sangue que

não está morta,

 

que é sombra

doente sob o nome

___ da língua.

 

 

 

Lisboa, 2.09.2004.