“O CONVITE”, por angela o.
Julho 28, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
Oh! aquela voz
o seu convite
___ de novo,
(para nos
vermos mas
sem estragos;
não que me
repudie o gosto
dos espargos,)
mas prefiro comer
peixe cozido
___ com ovo.
#2
Foram palavras
e mais palavras
___ cheias,
(depois ouvi
aquela pausa
quente e pesada,
que pela linha
veio muito bem
pensada,)
aquela voz
directa e sem
___ peias.
#3
- Repudia-te comer
carne ou comes
___ peixe?,
(e aguardou
a minha
resposta,)
preferes comer
antes bacalhau
em posta?
foi quando me
despertou o luminoso
___ feixe.
#4
O Cupido ou
ele disparou
___ a seta,
(directo ao
coração envolto
em mel,
directo ao
dedo na forma
de anel,)
que sonhei
quando alcançava
___ a meta.
#5
- Quero este
homem para me
___ acordar,
(mesmo na derradeira
cama ou num
pufe vermelho,
sem luz que
cegue ou com
o teu verdelho,)
preciso de tudo
para poder
___ nadar.
#6
Esta é a última
vontade de estar
___ a dois,
(aos meus
namorados antigos
e recentes,
deixo segredos
murmurados
entre dentes,)
ou a quem mais o
quiser descobrir sem
___ atrapalhar.
Lisboa, 6.5.2004
“TEMPO”, por angela o.
Julho 24, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#1
- Tu fazes
- me um
cafezinho?
( E ele descia
escorrendo
sem norte,
os dedos
pela minha
anca de
mansinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da morte,
do desapare –
cimento ___
ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca à pele).
#2
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele descia
mais escorrendo
sem perdão,
os dedos
pelas coxas
com carinho),
- olha ___ espera:
dizia ___ quero
falar-te da solidão,
desses nadas
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando a
boca aos pêlos).
#3
- Tu fazes
-me um
cafezinho?
(E ele escorria
Mais descendo
como um dardo,
indo ao mais
fundo do seu
amorzinho),
- olha ___ espera,
es-pe-ra: dizia eu,
- quero falar-te
do fardo,
do que nos consome
a melhor parte de nós
___ ouves José!
(E apalpava-me,
encostando aquela
húmida e dura boca).
#4
- E tu Maria
depois fazes
-me um café?
(foi quando senti
o fino sopro da
juventude,
num hálito___
e num passo
dado sem fé),
- José! não esperes;
dizia ___ mas queria
falar-te da plenitude,
do tempo que
não existe no
teu dia-a-dia.
(E tocou-me fundo
ouvindo o meu
grito fino e aberto).
Lisboa, 5.4.2005
“RAÍZES HÚMIDAS” – parte 2, por angela o.
Julho 22, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#5
De costas ___
ou de frente
sou mesmo
desejada,
numa
escrita
fina e
englobante;
___ pois
vivo agora
despida e
apaixonada,
permitindo
toda a
leitura
arrazante.
#6
Morro ___
agora no
exterior
da luz,
vendo o
cavalo
avançar
para ela;
___pois
sem estar
pregada
à cruz,
tenho uma
visão
brilhante
e bela.
#7
Iluminar ___
ou revelar
que sou
potente,
sentir
que tenho
testa de
pedra;
___pois
analisar o
fluxo eléctrico
na mente,
é não recuar
perante
a tortuosa
Fedra.
Lisboa, 2.09.2004.
“TEU CHEIRO”, por angela o.
Julho 16, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#1
- Oh! o cheiro
a corpo não é
___ negativo,
nem é o meu
desejo de
___ perdição,
ou de uma
queda na
___ paixão,
nem no
deboche
___ vingativo.
#2
- Oh! porquê
esta paixão pelo
___ cheiro,
que p’ra além
do próprio
___ limite,
na posição
passiva de um
___ dinamite,
sou possuída
pelo pensar
___ sem freio.
#3
- Oh! porque sou
vítima desta
___ paixão,
se não é de
todo concu-
___ piscência;
se o que sinto
é prazer na
___ violação,
da transgressão
interdita da
___ paciência.
Lisboa, 6.4.2004
“A LÍNGUA” – parte 2., por angela o.
Julho 15, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#5
A memória está
comigo agora
___ na porta,
quando a justiça
toca as chamas
da entrada;
a maldição
está connosco
nesta estrada,
como a pele invisível
tocada que se
___ corta.
#6
Os gestos todos
que fiz e me fizeram
___ pedra,
ou quase todos
nesta porosidade
desejada,
são como a membrana
da necessidade
mais amada,
um esquecimento
progressivo de que fui
___ Fedra.
#7
Agora desejo viver
apaixonada e a
___ envelhecer,
em gritos finos e
longos pregada a
esta cruz,
pois o que interessa
é tocar no exterior
da luz,
ou entrar em toda
a parte sem
___ estremecer.
Lisboa, 2.09.2004.
“A UNIÃO DA CARNE ” – parte3, por angela o.
Julho 9, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#13
O corpo esta carne
___ só a escuto
como maria,
(que caiu na
“santidade original”
ao despertar ),
numa lógica
de partilha
na vertigem
___ fria,
(em que o sentir
umbilical é fardo
___ tumular!).
(Que significa “união erótica” a cirandar:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#14
O teu corpo esta carne
___ só a escuto
quando sitiada,
(tal como uma
virgem aos gritos
perdida ),
numa lógica
viscosa ao ser
___ desejada,
(em que tudo olhavas
mesmo não estando
___ colhida!).
(Que é ser mulher- criança:
”senão dar gritos delirantes cheios de ardor
senão mesmo um tempo
___ em vez de um calor em mim”).
#15
O corpo esta carne
___ só a escuto
enquanto tremia,
(porque caiu na
“santidade animal”
de tudo abdicar ),
numa lógica de verdade
física que tudo
___ pressentia,
(quando deixava de
ser eu mas outra a
___ transbordar !).
(Que significa “união canibal” a vagabundear:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#16
O teu corpo essa carne
___ só a escuto quando
destravada,
(tal como a
mulher frívola a
cair desfeita),
numa lógica
submissa em tudo
___ desvairada,
(em que tu me olhavas
como uma mulher
___ eleita!).
(Amo-vos mulheres-esfinge:
”pois espia o tempo e este não é senão um calor
___ em vez de um ardor em mim”).
#17
O corpo esta carne
___ só a escuto
quando se alumia,
(porque caiu na
“santidade primordial”
da pessoa vulgar),
numa lógica de
pureza que tudo
___ repudia,
(mesmo na grinalda
votiva que te desafia
___ o olhar!).
(Que significa “união bestial” no limiar:
”se a mulher é feita para ser encontrada
___ e o homem para a encontrar”).
#18
O corpo a minha carne
___ só a escuto
quando enfeitiçada,
(tal como a
“santa passiva” na
sua mortificação),
numa lógica
de fractura toda
___ escancarada,
(numa crise
convulsiva até à
visão da salvação!).
(Pois andar cheia de frenesi comicial:
ӎ ter este calor todo como pudor ___
senão mesmo um ardor ou tremor ___
em vez de um tempo ou desgramento em mim”).
Lisboa, 14.06.05
“ESTOU PERTO ”- parte 2, por angela o.
Julho 6, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#6
Gosto de o
dizer que
“estou perto”,
para que ele
se aproxime
___ mais atento,
para perto de
mim sentir o
___ momento,
e rondar cada
vez mais o
___ amor aberto.
(Se eu “estou perto”
que não seja
___ tudo já).
#7
Gosto de fazer
o cerco de
fronte aflita,
para estar perto
da pessoa
___ amada,
para perto dele
___ sentir-me
aprisionada,
mesmo que
___ o momento
não se repita.
(Se eu “estou perto”
que não seja
___ tudo já).
#8
Gosto de
dar-me a essa
proximidade,
que quase nos
queima e o tempo
___ poisa,
como quando
mostrou cá
___ uma coisa,
e podermos
___ partilhar
a intimidade.
(Estou perto
sim! imundo
___ osso!)
#9
Gosto de
sentir o medo
da combustão,
quando começo
a subir a sua
___ escada,
para às vezes
dali sair toda
___ chamuscada,
com tanto calor
a acelerar-me
___ o coração.
(Estou quase
sim! obsceno
___ osso!)
#10
Como gosto
de o voltar
a conhecer,
muito embora
___estranhe
a coisa dele,
quando no doido
___ Verão passado
com ele,
o calor incendiou
de vez e fez-me
chorar e tremer.
(Se “estive lá”
que não seja ___
a última vez!)
Lisboa, 14.02.05
“SILÊNCIO ABSOLUTO” – parte2, angela o.
Julho 4, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#8
o silêncio não é absoluto a
alguém que apetece falar
___ de infernos,
ou quando apetece
muito encontrar
___ alguém,
ou atravessar em
vigília o sono que
___ não vem,
convidado por alguém
para os sonhos
___ eternos.
#9
o silêncio não é absoluto
pois aparece muito claro como
___ a língua,
pois na intersecção está
a língua na língua
___ arrancada,
na desocultação da
língua a minha língua
___ trancada,
naquela língua
transparente da impostura
___ da língua.
#10
o silêncio já é absoluto na
memória que está algures
___ na língua,
quando subo o
primeiro lanço
___ da escada,
ou sinto a nostalgia
infinita da língua
___ arrancada,
neste círculo de
sofrimento da
___ minha língua.
#11
o silêncio já não é absoluto
porque não aparece claro
___ como a língua,
quando subo os teus
degraus e toco à
___ tua porta,
ou se nasceu do
sangue e não está
___ morta,
por ser sombra doente
e nome na minha
___ língua.
#12
o silêncio absoluto é memória
que está comigo algures
___ na porta,
quando a minha justiça
toca as chamas da tua
___ entrada,
ou torna-se maldição
contigo algures na
___ estrada,
como uma pele
invisível tocada que
___ se corta.
#13
o silêncio são os teus
gestos todos que me fizeram
___ pedra,
ou quase todos
nesta porosidade
___ desejada,
tal membrana polida
na necessidade de ser
___ amada,
no esquecimento de
quem se acha ainda
___ Fedra.
#14
o absoluto é desejo de
viver apaixonada e a
___ envelhecer,
em gritos finos e
longos pregada à
___ cruz,
que sempre interessa
tocar no exterior
___ da luz,
e sentir tu entrares e saíres
em toda a parte sem nunca
___ estremecer.
Lisboa, 24.9.2004
“RAÍZES HÚMIDAS” – parte 1, por angela o.
Julho 3, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
Colher!
___ foi a
primeira
palavra,
desta
colheita
que me
espera;
___ pois
me reflue
na cabeça
esta lavra,
de colher
talos na
Primavera.
#2
A palavra
___ colher
é sempre
da mulher,
é como a
beleza nua
do acto na
paisagem;
___ pois o
jardim cantou
e eu seguro
na colher,
mesmo
depois de
abrir o saco
da bagagem.
#3
Esta ___
aventura
reflue agora
junto à fonte,
e tudo são
dádivas
oferecidas
ao amor;
___ pois ao
acto de colher
chamo ceifar
no monte,
longe do olhar
dos deuses
cheios de
temor.
#4
Ouço ___
os teus gritos
neste nosso
silêncio,
enquanto
ainda
não te
falo,
observo ___
o barco
num mar
em vagas;
___ pois
invento o
acto de colher
o duro talo,
(Enquanto
apanho todas
as uvas e
bagas).
Lisboa, 2.09.2004.
“A LÍNGUA” – parte 1, por angela o.
Julho 1, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
A ninguém me
apetece falar
___de infernos,
mas apetece
encontrar-me
com alguém,
atravessar em
vigília o sono
que não vem,
convidado por
alguém em sonhos
___ eternos,
#2
Mas sempre
aparece é claro
___ a língua,
a intersecção da
língua na língua
arrancada,
a desocultação
da língua na
língua trancada,
aquela língua
transparente na impostura
___ da língua.
#3
A memória está
comigo agora
___ na língua,
quando subo
o primeiro lanço
da escada;
é nostalgia
infinita da língua
arrancada,
neste círculo
de sofrimento
___da língua.
#4
Mas nunca
aparece é claro
___ a língua,
quando se sobe
os degraus e
toca-se à porta,
do que nasce
do sangue que
não está morta,
que é sombra
doente sob o nome
___ da língua.
Lisboa, 2.09.2004.









