SIMONE DE BEAUVOIR, (9.01.1908/ 9.01.2008).
Junho 5, 2008
http://www.youtube.com/watch?v=vy-BwMwEDkE
No centenário do seu nascimento, Simone é evocada com grande destaque como uma mulher da escrita e da acção, que teve um contributo fundamental para o pensamento feminista.
É certo, que foi uma figura demasiado impura em todos os campos em que atravessou. Ela foi escritora, filósofa e mulher, tendo Júlia Kristeva num artigo do “Magazine Littéraire” dito que Simone manifestou uma outra faceta da sua generosa vitalidade quando encarnou “uma filosofia política da liberdade no microcosmo do íntimo”.
Sabendo que a história do movimento feminista está cheia de tensões e violências, de lutas e excomunhões o livro “O Segundo Sexo” veio criar à sua volta viva polémica e discussão e ataque de que foi alvo. Foi vista como a artífice da alienação das mulheres e obstáculo à emancipação feminina para o Movimento de Libertação das Mulheres.
A rapariguinha parisiense cedo mostrou um espírito de empreendedor e de combate. Quando conheceu Sartre, iniciou-se uma relação para sempre, regida por um pacto de liberdade proposto pelo próprio, em que cada um podia seguir as aventuras amorosas e sexuais que as contingências da vida pessoal exigiam e proporcionavam, sem pôr em causa o amor necessário do casal.
Na obra “O Segundo Sexo” tanto a sua metodologia como nos seus conceitos e categorias fundamentais ao discurso existencialista. É bom lembrar que é aí que ele nasce e não de um qualquer movimento feminista ou de uma vaga feminista latente. Aí defende que a condição empírica de ser mulher, na sua determinação histórica é a seguinte: « Este é um mundo que sempre pertenceu ao macho: mas nenhuma das explicações que para isso foram dadas nos pareceu suficiente. Só retomando os dados da pré-história e da etnologia à luz da filosofia existencial poderemos compreender de que modo se estabeleceu a hierarquia dos sexos.»
Simone enuncia que não se nasce mulher, torna-se mulher: «on ne nait pás femme, on le devient». Que a “mulher” era um facto cultural e se constituía culturalmente como o Outro do homem e que era subtraída à condição de Sujeito. Que “as determinações sociais e culturais aparecem, então, em vez da definição biológica pela maternidade e pela reprodução”.
Fazer com que a mulher ganhe a condição de sujeito foi o grito de liberdade que Beauvoir fez ouvir em muitas latitudes. Para o movimento feminista “diferencialista” as suas posições eram ainda uma sujeição ao princípio masculino e, portanto, um modo de perpetuar a sujeição. Mas Beauvoir reivindicou a igualdade da mulher relativamente ao homem; embora a reivindicação da diferença fosse um outro caminho traçado pelo feminismo mais recente. Também estava já prefigurado em Beauvoir a diferença entre género e sexo bem como a “desconstrução” do género no pensamento das feministas. (1)
A publicação de “O Segundo Sexo” aos 41 anos, foi durante décadas a Bíblia do feminismo, e vai muito longe: “o slogan” resume todo um programa e dispôs-se a prová-lo. «Nenhum destino biológico, psíquico, económico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.»
Na sua radicalidade a frase «Não se nasce mulher, tornamo-nos mulheres», abriu campo ao conceito de “género” que acabaria por substituir-se à palavra “sexo”em que assenta grande parte das teorias feministas actuais, pressupondo que a ideia de sexo é natural e a de género socialmente construída.
Ora, na época de Simone as questões de definição identitária feminina ou de “género” não se colocaram, mas procurou-se explicar às mulheres que elas não estavam obrigadas a nada daquilo que se dizia defini-las enquanto tais, como Mães, Esposas e Donas de casa.
Actualmente sim, urge saber o que é a identidade feminina, em que se distingue da identidade masculina, problema muito actual, do qual ainda não saímos.
Se o “Segundo Sexo” descrevia um mundo em que as mulheres se vêem condenadas à invisibilidade, a suportar casamentos (moral e sexualmente) insuportáveis, dependentes economicamente do homem e reduzidas a procriadoras da espécie, por outro lado, com a crise da família tradicional, são elas quem suporta o ónus dos filhos, somando o trabalho assalariado à maternidade. (2)
São milhões as mulheres que vivem sem tempo nem dinheiro para gozar a liberdade conquistada. Por outro lado, os homens parecem mais angustiados quanto ao seu novo papel que podem ou devem desempenhar.
Portanto, se muita coisa mudou e se houve revolução no século XX, ela fez-se no feminino. E para perceber o quanto se avançou na igualdade dos sexos ao longo dos últimas três décadas em Portugal, a sociedade portuguesa actual é um ecrã onde são cada vez mais as mulheres que “vêem coisas muito diferentes e que nem sempre gostam do que vêem”.
REFERÊNCIAS:
(1) In “SIMONE de BEAUVOIR, Esse Bicho Chamado Castor” texto de António Guerreiro, in: ACTUAL (revista) EXPRESSO ( nº1838) de 19.01.2008.
(2) In “SIMONE de BEAUVOIR . Coragem & Inteligência” texto de Ana Cristina Leonardo, in: ACTUAL (revista) EXPRESSO ( nº1838) de 19.01.2008.
Simone de Beauvoir
http://www.youtube.com/watch?v=BS_x7-qbJeQ
http://simonedebeauvoir.free.fr/
http://www.youtube.com/watch?v=ZwuX9ky1dJM
http://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Beauvoir
http://www.simonebeauvoir.kit.net/
http://www.cddc.vt.edu/feminism/ethnic.html
http://pagesperso-orange.fr/espace-de-beauvoir/
http://www.journeedelafemme.com/
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