Lembrança de Maria Teresa Horta

#1

O meu corpo

esta carne ___

compreendo-a

só no escuro,

 

(ao cair na

armadilha em

que tudo em mim

sangrava),

 

como na lógica

mesquinha

desse teu

amplexo puro,

 

(que no meu

sentir mental

já eu tudo

adivinhava!).

 

(Que significa então ___           

esse teu olhar de Adão:

”se a carne tem razões,

que brincam com a razão?”).

 

 

#2

O teu corpo

esta carne ___

compreendo-a

por inteiro,

 

(tal como

a casa

que pulsa e

respira ao luar),

 

como na lógica

sangrenta ___

de um meu

companheiro,

 

(quando

tudo em mim

olhavas muito

devagar!).

 

(O que é tu seres homem:

”se andas com  rodeios ___

se já na infância se ouviam,

tantos ganidos sem freios!”)

 

 

#3

O meu corpo

essa carne ___

compreendo-a

quando dada,

 

(pois caiu na

armadilha visual ___

de uma noite

nítida e estranha),

 

como naquela

lógica de criança

mesmo toda

serena e nublada,

 

(em que não

deixas que eu

também goze

e me tenha!).

 

(Que significa então___

esse olhar de constrição:

”se a carne tem razões,

que brincam com a  razão”).

 

 

#4

O teu corpo

essa tua carne___

aceito-a

sem regra,

 

(como as

tuas pernas ___

ao ajoelhar

para me beijares),

 

naquela lógica

de ir e vir ___

na crista da

onda negra,

 

(em que tudo

me dizias___

sem nada me

perguntar!).

 

(Homens!  Amo – vos muito:

“pois ter asas no tempo ___

não é senão sentir um calor,

em vez de um grande ardor?”).

 

 

#5

O meu corpo

essa carne ___

aceito-a na

melancolia,

 

(pois caiu na

armadilha ___

das lágrimas

caladas),

 

naquela lógica

de adulto ___

muito cerrada

e fria,

 

(em que tudo

são rosas ___

mas todas

desfloradas!).

 

(Que significa esse___

 teu olhar de possessão:

”se a carne tem razões,

que brincam com a razão!”).

 

 

#6

O teu corpo

essa carne ___

aceito-a quando

peregrina,

 

(tal como

a tua boca

quando é toda

só para mim),

 

como naquela

lógica ___

sangrenta de

ascensão divina,

 

(em que

beijavas-me ___

como a nenhuma

outra assim!).

 

(Andar cheia de homem:

“é conter todo este calor ___

senão mesmo todo o ardor,

em vez do tempo em mim”).

 

 

Lisboa, 14.06.05

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