“QUE VELHICE ?” – parte 2, por angela o.
Junho 30, 2008
Lembrança de Simone de Beauvoir
#5
Exiges de nós
___ dia à dia
mês a mês
a pura face,
tal como uma
velha arte no
verdadeiro ___
sentido,
perdoa-nos
a nossa
imodéstia
e disfarce,
acho que
conseguis-te e
não foi tempo
perdido.
#6
Olhaste-te ao
espelho um dia
___ e viste a tua
crua beleza,
tu passaste a
torrente de luz
e nem eu ___
bem o sei,
pois são mais
os risos do que
lágrimas na
natureza,
creio que nada
me desagradou
em ti pois tudo
encontrei.
#7
Estou convencida
___ que a tua
velhice não foi
um pranto,
não foi outra coisa
senão uma
lenta e bela ___
revelação;
mais do que uma
espécie de “striptease”
da alma num canto,
fazeres anos
deveria ter sido
um gostar cheio
de emoção.
Lisboa, 9.01.2008
“QUE PRAZER?” – parte 2, por angela o.
Junho 30, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#4
Prazer —
és género
feminino;
no movimento
primitivo
do desejo
— em nós;
mas desejamos – te
ou somos
desejadas?
#5
Quem és tu
— minha besta?
és texto
cristão
— ou a lei?
legitimidade
do gozo
— não;
és prazer?
— também
não.
mal não és
— quem
Tu és?
se o prazer
não és?
és ideia de
prazer
— talvez;
não és gozo
— quem
és Tu?
#6
Porque
nos pões
— fora de nós?
se não gozamos
— então quem
goza por nós?
é algo ou
alguém
— mas não TU,
que goza
em nós
— mas como?
#7
És ponte
entre o desejo
e o interdito,
ligação perigosa
— mas de
onde vens?
és ideia
de gozo
— és um mal?
mas aonde?
em que parte
de mim?
se dá a
perda
de domínio!
#8
Não Tu
— mas
do corpo
talvez;
coisa
boa
aquilo?
— não sei.
Lisboa, 13.4.2004
“SILÊNCIO ABSOLUTO” – parte 1, angela o.
Junho 27, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
o silêncio não é
absoluto senão
___ nos cativos,
pois é um ruído
que entra como
___ as aves,
quando a sós
em palpitações
___ graves,
como a batida
cardíaca dos
___ fugitivos.
#2
o silêncio é
absoluto no corpo
___ em liberdade,
como a cidade que
não pára e me deixa
___ inquieta,
nesta hora do
escuro numa fantasia
___ secreta,
onde pensamentos a
milímetros estão
___ em claridade.
#3
o silêncio já é absoluto
nos meus braços
___ abatidos,
nas ancas e nas costas
de onde penso que
___ saem,
como no alto do colchão
onde as pernas
___ caem,
de baixo e de fora
para dentro quando
___ vestidos.
#4
o silêncio já não é
absoluto sem a carne que
___ esconde,
em cada milímetro deste
corpo em que sou
___ cavaleira,
que invento uma suave
queda para trás e sou
___ traiçoeira,
indo até ao fundo do
abismo quando ele me
___ responde.
#5
o silêncio absoluto está
fora de mim quando
__ amada,
quando confortável
aqui onde cheguei em
___ braços,
como no vazio último
da consciência dos
___ espaços,
segura de mim
e de ti quando me deixa
___ arrebatada.
#6
o teu silêncio
é agora um puro
___ amor,
fora de si fora
de mim naqueles
___ braços,
onde ninguém fala
comigo naqueles
___ espaços,
onde só tu me vês
mas eu sou um
___ queimador.
#7
o absoluto é não me
incomodar com esse
___ sorriso bestial,
mas poder sentir um
cansaço por ser dia
___ de resgate,
do meu corpo dos
pensamentos no seu
___ denso combate,
não adormecendo até
que a consciência me seja
___ real.
Lisboa, 24.9.2004
“Ai_ Ki _ Ku” – parte2 , por angela o.
Junho 24, 2008
Lembrança de Adélia Lopes
#4
Oh! porquê
esta tua
repressão,
— quando
fechadas ou
em suspensão,
— desenham
uma cruz na
sua constrição.
#5
Oh! mulher
que grande
é a visão,
— do orifício
central em
consagração,
— como se
fosse um
coração.
#6
Ai! que cu
e a tudo
condizer,
— sois furor
de grande
prazer,
— como um
objecto votivo
a crescer.
Lisboa, 5.04.2004
“ESTOU PERTO ”- parte 1, por angela o.
Junho 23, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
outra ___
e a mim mesma,
não voltar
nunca ___
a ser traiçoeira,
a não me
envolver ___
se o mar ondeia,
a não
apaixonar-me ___
depois dos 25,
mesmo em
noite de lua
___ cheia;
e até prometi ___
não sair
com rapazes,
não voltar
a cair ___
na ratoeira.
(Doce estilo! ___
‘Joie d’amour
aos 30 anos!)
#2
Ao fim daqueles
anos todos ___
nada serenos,
separei-me da
conjugalidade ___
alcancei a liberdade,
três miúdos ou ___
namorados de
23 anos tive,
todos rapazes
negros e ___
outros morenos,
como eram bonitos
como alcancei ___
a claridade.
(Dolce etile! ___
a alegria d’amour
aos 20 anos!)
#3
Dois deles muito
bons amantes ___
sensíveis ao amor,
o último dos três
um bom ___
cavaleiro andante,
com ele tudo
experimentei até o
___ beijo anelante;
este foi o melhor
de sempre ___
na grande dor.
(Pénis libré!___
como um
osso dançante!)
#4
Cada vez ___
que durmo com alguém
gosto que seja aberto,
que tente superar-se
ao último ___
em todos os espaços;
gosto do seu osso
dançante de perder-me
nos seus braços,
gosto de ouvir
que foi bom ___
de estar outra vez
mais perto.
(Vulva libré! ___
como um
beijo anelante!)
#5
Gosto de saborear
a expressão ___
sem a todos a esconder,
de estar perto ___
de saber que vai
mesmo acontecer,
de estar quase ___
e sentir que é
desta que vai ser,
e até gosto de mentir
que “estou perto” ___
sem tudo dizer.
(Dolce estilo ___
‘Joie d’amour’
aos 30 anos.)
Lisboa, 22.02.2005
“SINAL VERMELHO”, por angela o.
Junho 18, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#1
- Sabia ___
que estava a
passar o sinal
vermelho,
a deixar o ___
pomar materno
onde apanhara
aquela maçã,
deixando todas
as outras ___ mas
sentindo a brisa
da manhã,
bem fresca ___
através da janela
reflectida no
espelho.
#2
- Sabia ___
que deixara para
trás o pomar
junto à ladeira,
onde se reflectira
o meu rosto ___
quando estava a
falar ao espelho,
grande da sala ___
e não do espelho
que tinha na mala
de pele de coelho;
aquele enorme
de perder o pé
que veio da
aldeia fundeira.)
#3
- Espelho ___
tão profundo
e antigo uma
grata herança,
de uma bisavó
qualquer ___
brasileira ou
portuguesa,
que ocupa tanto
espaço ___
como uma cómoda
francesa,
que se mergulhar
nele perco
o fiel da
balança.
#4
- Quero agora ___
regenerar-me
dentro de um baralho
de bacará,
pois vejo-me ___
não como um espelho
mas como
um lago,
onde perco
o pé ___
como na bebida
dada num trago,
se a vida começar
com Alice a
passar para o
lado de cá.
Lisboa, 8.4.2004
“A UNIÃO DA CARNE ” – parte 2. , por angela o.
Junho 16, 2008
Lembrança de Maria Teresa Horta
#7
O meu corpo
esta carne___
não a compreendo
como sangue,
(pois caiu numa
armadilha real ___
em que tudo em ti
é penitente),
naquela lógica
mesquinha___
de rosto
exangue,
(em que o meu
sentir animal ___
é mesmo
inocente!).
(Que significa esse olhar de invasão:
”se a carne tem razões ___
que brincam com a razão”).
#8
O teu corpo
esta carne___
não a compreendo
em mim,
tal como a flor
do meu ser___
resiste à sede
como o camelo,
(naquela lógica
sangrenta ___
de outra
mesmo assim),
em que tudo
olhavas ___
de hirto como
num pesadelo!).
(O que é ser mulher:
”senão ouvir gritos sonoros cheios de ardor,
senão mesmo um tempo ___
em vez de um calor em mim ”).
#9
O meu corpo
essa carne___
não a compreendo
como terra escura,
(pois caiu numa
armadilha central ___
em que tudo em
ti me ofusca),
naquela lógica
de criança___
que é elástica
e dura,
(que não me
deixa de todo
ser eu ___
nesta busca!).
(Que significa esse olhar de fusão :
”se a carne tem razões___
que brincam com a razão”).
#10
O teu corpo
essa carne ___
não a compreendo
senão maluca,
(tal como o fruto
do pecado ___
sulcado de
vermelho),
naquela lógica
sangrenta ___
de espiar-me
já caduca,
(em que tudo
olhavas ___
quando me
espelho!).
(Amo-vos mulheres:
”pois espiar o tempo não é senão um calor___
em vez de um ardor em mim”).
#11
O meu corpo
a tua carne ___
não a compreendo
como intrusa,
(pois caiu numa
armadilha brutal ___
cheia de
sonho),
naquela lógica
de adulto ___
trémula e
confusa,
(em que
tudo é luar ___
mesmo
medonho!).
(Que significa esse olhar de implosão:
”se a carne tem razões___
que brincam com a razão”).
#12
O teu corpo
a minha carne ___
não a compreendo
desprendida,
(tal como a
minha ferida ___
de mulher
escorchada),
naquela sangrenta
lógica ___
quando toda
fendida,
(em que tudo
beijavas ___
quando
desnudada!).
(Andar cheia de mulher:
”é como ter este calor senão mesmo um ardor ___
em vez de um tempo em mim”).
Lisboa, 14.06.05
“O PRAZER DA LEITURA” , por angela o.
Junho 11, 2008
Lembrança de Maria Gabriela Llansol
#1
A minha sala
de leitura
é feita de terra
___ escura,
onde me espraio
de prazer
num acto lento;
pois procuro a leitura
da palavra elástica e
___ dura,
que só faz
todo o sentido
na hora do vento.
#2
É o meu tempo
de despertar
até à
___ plenitude,
em gestos que me
acordam de toda a dor;
pois reconheço agora
a alegria da
___ juventude,
onde as palavras
são de prazer
libertador.
#3
Ofereces-me
finalmente a caneta
___ prometida,
que sem pedir licença
escreve a sua linha;
pois ouço agora a
leitura em que estou
___ consumida,
em que o canto
é um pranto
quando presa pela crina.
#4
Da garganta saem
todas as leituras
___ antigas,
e tu bebes as palavras
cheias de saudade;
pois são dádivas de silêncios
mesmo que não
___ o digas,
às paredes que refluem
de prazer e claridade.
#5
Leio toda a literatura
mesmo de pé ou a
___ cavalo,
até na batalha da leitura
mostras toda a crueldade;
pois a flor do prazer
libertador é para ti
___ um talo,
arrancado em prantos
neste canto de liberdade.
#6
Até Bíblias reescrevias
ou lias na minha
___ lua,
ou interpretavas à tua
maneira de pura face;
pois contavas histórias
intermináveis pela
___ rua,
sobre o prazer de ser mulher
num monólogo sem disfarce.
#7
Agora quero essa
boca filtrada pelo
___ vitral,
para beijar sofregamente
a tua doce voz;
pois quero metamorfosear-me
também em
___ vestal,
para ser única a sentir
prazer ao entrar em vós.
Lisboa, 28.07.2004
“QUE VELHICE ?” – parte1, por ângela o.
Junho 11, 2008
Lembrança de Simone de Beauvoir
#1
- Simone
mulher!
hoje fazes
muitos anos,
hoje
pertence-te
este primeiro ___
centenário,
como no
seguimento
de outros
mais anos,
és para
nós todas
sempre um
“corsário”.
#2
Enquanto
mulher a
tua vida foi
acidentada,
aos quarenta
dois anos
abriste-nos ___
o teu véu,
quanto mais
os anos passam
ficas
gravada,
melhor mesmo
é fazer anos
na terra do
que no céu.
#3
Nestes anos
todos
o tempo
se poisa,
fazeres anos
foi uma
delícia não ___
um tormento,
foi gostar
de ser mulher
e não qualquer
coisa,
embora
os anos
passassem
como o vento.
#4
Qualquer
uma de nós
passa por eles
sem demora;
qualquer
uma de nós
festeja os teus ___
aniversários;
mas fazer anos
fazê-los como tu
é deveras ___
muito “fora”,
tal como
construí – los
hora à hora contra
os adversários.
Lisboa, 9.01.2008
“FRISSON”, por angela o.
Junho 9, 2008
Lembrança das Três Marias
#1
Como não é___
por demais
depressa passar
de figura,
de mulher
prometida a
qualquer outra
forma desejada;
sem deles
ficar saudosa
ou por eles
cair na nortada,
ou naquela
forma pegajosa
de abóbora
menina segura.
(mulher parva!
Já não fazes ‘frisson’!)
#2
Como é___
por demais
passar a
meia-noite aflita,
pensando no
feitiço que não
chega antes
da hora escura,
ou até cheia
daquela sorte má
que volta como
abóbora impura,
como na
intragável forma
de Cinderella em
que toda se agita.
(mulher abóbora!
Já não fazes ‘frisson’).
#3
Mas qual é___
então essa
verdadeira
juventude,
neste intragável
e abominável
mundo
extremista,
senão o
estarmos todas
perante o olhar
sexista,
quando antes
deveríamos estar
cheias de muita
virtude .
(mulher parva!
Tu és uma abóbora!).
#4
Basta___
mulheres!
já não há belas
princesas,
somos todas
abóboras
cheias de muita
saúde,
para quê
sermos todas
sexys ou sabermos
tocar alaúde,
se este mundo
machista
só pertence
ás mais tesas.
(viva o ‘frisson’!
deixemos de
ser tolas e parvas
mulheres)
Lisboa, 7.01.2005









