Lembrança de  Simone de Beauvoir

 

#5

Exiges de nós

___ dia à dia

mês a mês

a pura face,

 

tal como uma

velha arte no

verdadeiro ___

sentido,

 

perdoa-nos

a nossa

imodéstia  

e disfarce,

 

acho que

conseguis-te e

não foi tempo

perdido.

 

 

#6

Olhaste-te ao

espelho um dia

___ e viste a tua

crua beleza,

 

tu passaste a

torrente de luz

e nem eu ___

bem o sei,

 

pois são mais

os risos do que

lágrimas na

natureza,

 

creio que nada

me desagradou

em ti pois tudo

encontrei.

 

 

#7

Estou convencida

___ que a tua

velhice não foi

um pranto,

 

não foi outra coisa

senão uma

lenta e bela ___

revelação;

 

mais do que uma

espécie de “striptease”

da alma num canto,

 

fazeres anos

deveria ter sido

um gostar cheio

de emoção.

 

 

Lisboa, 9.01.2008

 

 

Lembrança de Adélia Lopes

 

#4

Prazer —

és género

feminino;

 

no movimento

primitivo

do desejo

— em nós;

 

mas desejamos – te

ou somos

desejadas?

 

 

#5

Quem és tu

— minha besta?

 

és texto

cristão

— ou a lei?

 

legitimidade

do gozo

— não;

 

és prazer?

— também

não.

 

mal não és

— quem

Tu és?

 

se o prazer

não és?

 

és ideia de

prazer

— talvez;

 

não és gozo

— quem

és Tu?

 

 

#6

Porque

nos pões

— fora de nós?

 

se não gozamos

— então quem

goza por nós?

 

é algo ou

alguém

— mas não TU,

 

que goza

em nós

— mas como?

 

 

#7

És ponte

entre o desejo

e o interdito,

 

ligação perigosa

— mas de

onde vens?

 

és ideia

de gozo

— és um mal?

 

mas aonde?

em que parte

de mim?

 

se dá a

perda

de domínio!

 

 

#8

Não Tu

— mas

do corpo

talvez;

 

coisa

boa

aquilo?

 

— não sei.

 

 

Lisboa, 13.4.2004

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

#1

o silêncio não é

absoluto senão

___ nos cativos,

 

pois é um ruído

que entra como

___ as aves,

 

quando a sós

em palpitações

___ graves,

 

como a batida

cardíaca dos

___ fugitivos.

 

 

#2                                    

o silêncio é

absoluto no corpo

___ em liberdade,

 

como a cidade que

não pára e me deixa

___ inquieta,

 

nesta hora do

escuro numa fantasia

___ secreta,

 

onde pensamentos a

milímetros  estão

___ em claridade.

 

 

#3

o silêncio já é absoluto

nos meus braços

___ abatidos,

 

nas ancas e nas costas

de onde penso que 

___ saem,

 

como no alto do colchão

onde as pernas  

___ caem,

 

de baixo e de fora

para dentro quando

___ vestidos.

 

 

#4

o silêncio já não é

absoluto sem a carne que

___ esconde,

 

em cada milímetro deste

corpo em que sou 

___ cavaleira,

 

que invento uma suave

queda para trás e sou

___ traiçoeira,

 

indo até ao fundo do

abismo quando ele me

___ responde.

 

 

#5

o silêncio absoluto está 

fora de mim quando

__ amada,

 

quando confortável 

aqui onde cheguei em

___ braços,

 

como no vazio último

da consciência dos

___ espaços,

 

segura de mim

e de ti quando me deixa

___ arrebatada.

 

 

#6

o teu silêncio

é agora um puro

___ amor,

 

fora de si fora

de mim naqueles

___ braços,

 

onde ninguém fala

comigo naqueles

___ espaços,

 

onde  só tu me vês

mas eu sou um

___ queimador.

 

 

#7

o absoluto é não me

incomodar com esse

___ sorriso bestial,

 

mas poder sentir  um

cansaço por  ser dia

___ de resgate,

 

do meu corpo dos

pensamentos no seu

___ denso combate,

 

não adormecendo até  

que a consciência me seja

___ real.

 

 

Lisboa, 24.9.2004

 

Lembrança de Adélia Lopes

 

 

#4

Oh! porquê

esta tua

repressão,

 

— quando

fechadas ou

em suspensão,

 

— desenham

uma cruz na

sua constrição.

 

 

 

#5

Oh! mulher

que grande

é a visão,

 

— do orifício

central em

consagração,

 

— como se

fosse um

coração.

 

 

#6

Ai! que cu 

e a tudo

condizer,

 

— sois furor

de grande

prazer,

 

— como um

objecto votivo

a crescer.

 

 

Lisboa, 5.04.2004

Lembrança de Maria Teresa Horta

 

#1

Prometi à

outra ___

e a mim mesma,

 

não voltar

nunca ___

a ser traiçoeira,

 

a não me

envolver ___

se o mar ondeia,

 

a não

apaixonar-me ___

depois dos 25,

 

mesmo em

noite de lua

___ cheia;

 

e até prometi ___

não sair

com rapazes,

 

não voltar

a cair ___

na ratoeira.

 

(Doce estilo! ___

‘Joie d’amour

aos 30 anos!)

 

 

#2

Ao fim daqueles

anos todos ___

nada serenos,

 

separei-me da

conjugalidade ___

alcancei a liberdade,

 

três miúdos ou ___

namorados de

23 anos tive,

 

todos rapazes

negros e ___

outros morenos,

 

como eram bonitos

como alcancei ___

a claridade.

 

(Dolce etile! ___

a alegria d’amour

aos 20 anos!)

 

 

#3

Dois deles muito

bons amantes ___

sensíveis ao amor,

 

o último dos três

um bom ___

cavaleiro andante,

 

com ele tudo

experimentei até o

___ beijo anelante;

 

este foi o melhor

de sempre ___

na grande dor.

 

(Pénis libré!___

como um

osso dançante!)

 

 

#4

Cada vez ___

que durmo com alguém

gosto que seja aberto,

 

que tente superar-se

ao último ___

em todos os espaços;

 

gosto do seu osso

dançante de perder-me

nos seus braços,

 

gosto de ouvir

que foi bom ___

de estar outra vez

mais perto.

 

(Vulva libré! ___

como um

beijo anelante!)

 

 

#5

Gosto de saborear

a expressão ___

sem a todos a esconder,

 

de estar perto ___

de saber que vai

mesmo acontecer,

 

de estar quase ___

e sentir que é

desta que vai ser,

 

e até gosto de mentir

que “estou perto” ___

sem tudo dizer.

 

(Dolce estilo ___

‘Joie d’amour’  

aos 30 anos.)

 

 

Lisboa, 22.02.2005

Lembrança de Maria Teresa Horta

#1

- Sabia ___

que estava a

passar o sinal

vermelho,

 

a deixar o ___

pomar materno

onde apanhara

aquela maçã,

 

deixando todas

as outras ___ mas

sentindo a brisa

da manhã,

 

bem fresca ___

através da janela

reflectida no

espelho.

 

 

#2

- Sabia ___

que deixara para

trás o pomar

junto à ladeira,

 

onde se reflectira

o meu rosto ___

quando estava a

falar ao espelho,

 

grande da sala ___

e não do espelho

que tinha na mala

de pele de coelho;

 

aquele enorme

de perder o pé

que veio da

aldeia fundeira.)

 

 

#3

- Espelho ___

tão profundo

e antigo uma

grata herança,

 

de uma bisavó

qualquer ___

brasileira ou

portuguesa,

 

que ocupa tanto

espaço ___

como uma cómoda

francesa,

 

que se mergulhar

nele perco

o fiel da

balança.

 

 

#4

- Quero agora ___

regenerar-me

dentro de um baralho

de bacará,

 

pois vejo-me ___

não como um espelho

mas como

um lago,

 

onde perco

o pé ___

como na bebida

dada num trago,

 

se a vida começar

com Alice a

passar para o

lado de cá.

 

 

Lisboa, 8.4.2004

 

 

Lembrança de Maria Teresa Horta

#7

O meu corpo

esta carne___

não a compreendo

como sangue,

 

(pois caiu numa

armadilha real ___

em que tudo em ti

é penitente),

 

naquela lógica

mesquinha___

de rosto

exangue,

 

(em que o meu

sentir animal ___

é mesmo

inocente!).

 

(Que significa esse olhar de invasão:

”se a carne tem razões ___

que brincam com a razão”).

 

 

#8

O teu corpo

esta carne___

não a compreendo

em mim,

 

tal como a flor

do meu ser___

resiste à sede

como o camelo,

      

(naquela lógica

sangrenta ___

de outra

mesmo assim),

 

 

em que tudo

olhavas ___ 

de hirto como

num pesadelo!).

 

(O que é ser mulher:

”senão ouvir gritos sonoros cheios de ardor,

senão mesmo um tempo ___

em vez de um calor em mim  ”).

 

 

#9

O meu corpo

essa carne___

não a compreendo

como terra escura,

 

(pois caiu numa

armadilha central ___

em que tudo em

ti me ofusca),

 

naquela lógica

de criança___

que é elástica

e dura,

 

(que não me

deixa de todo

ser eu ___

nesta busca!).

 

(Que significa esse olhar de fusão :

”se a carne tem razões___

que brincam com a razão”).

 

 

#10

O teu corpo

essa carne ___

não a compreendo

senão maluca,

 

(tal como o fruto

do pecado ___

sulcado de

vermelho),

 

naquela lógica

sangrenta ___

de espiar-me

já caduca,

 

(em que tudo

olhavas ___

quando me

espelho!).

 

(Amo-vos mulheres:

”pois espiar o tempo não é senão um calor___

em vez de um ardor em mim”).

 

 

#11

O meu corpo

a tua carne ___

não a  compreendo

como intrusa,

 

(pois caiu numa

armadilha brutal ___

cheia de

sonho),

 

naquela lógica

de adulto ___

trémula e

confusa,

 

(em que

tudo é luar ___

mesmo

medonho!).

 

(Que significa esse olhar de implosão:

”se a carne tem razões___

que brincam com a razão”).

 

 

#12

O teu corpo

a minha carne ___

não a compreendo

desprendida,

 

(tal como a

minha ferida ___

de mulher

escorchada),

 

naquela sangrenta

lógica ___

quando toda

fendida,

 

(em que tudo

beijavas ___

quando  

desnudada!).

 

(Andar cheia de mulher:

”é como ter este calor senão mesmo um ardor ___

em vez de um tempo em mim”).

Lisboa, 14.06.05

 

 

 

 

Lembrança de Maria Gabriela Llansol

 

#1

A minha sala

de leitura

é feita de terra

___ escura,

 

onde me espraio

de prazer

num acto lento;

 

pois procuro a leitura

da palavra elástica e

___ dura,

 

que só faz

todo o sentido

na hora do vento.

 

 

#2

É o meu tempo

de despertar

até à

___ plenitude,

 

em gestos que me

acordam de toda a dor;

 

pois reconheço agora

a alegria da

___ juventude,

 

onde as palavras 

são de prazer

libertador.

 

 

#3

Ofereces-me

finalmente a caneta

___ prometida,

 

que sem pedir licença

escreve a sua linha;

 

pois ouço agora a

leitura em que estou

___ consumida,

 

em que o canto

é um pranto

quando presa pela crina.

 

 

#4

Da garganta saem

todas  as leituras

___ antigas,

 

e tu bebes as palavras

cheias de saudade;

 

pois são dádivas de silêncios

mesmo que não

___ o digas,

 

às paredes que refluem

de prazer e claridade.

 

 

#5

Leio toda a literatura

mesmo de pé ou a

___ cavalo,

 

até na batalha da leitura

mostras toda a crueldade;

 

pois a flor do prazer

libertador é para ti

___ um talo,

 

arrancado em prantos

neste canto de liberdade.

 

 

#6

Até Bíblias reescrevias

ou lias na minha

___ lua,

 

ou interpretavas à tua

maneira de pura face;

 

pois contavas histórias

intermináveis pela

___ rua,

 

sobre o prazer de ser mulher

num monólogo sem disfarce.

 

 

#7

Agora quero essa 

boca filtrada pelo

___ vitral,

 

para beijar sofregamente

a tua doce voz;

 

pois quero metamorfosear-me

também em

___ vestal,

 

para ser única a sentir

prazer ao entrar em vós.

 

Lisboa, 28.07.2004

 

Lembrança de  Simone de Beauvoir

#1

- Simone

mulher!

hoje fazes

muitos anos,

 

hoje

pertence-te

este primeiro ___

centenário,

 

como no

seguimento

de outros

mais anos,

 

és para

nós todas  

sempre um

“corsário”.

 

 

#2

Enquanto

mulher a

tua vida foi

acidentada,

 

aos quarenta

dois anos  

abriste-nos ___

o teu véu,

 

quanto mais

os anos passam

ficas

gravada,

 

melhor mesmo

é fazer anos

na terra do

que no céu.

 

 

#3

Nestes anos

todos

o tempo

se poisa,

 

fazeres anos

foi uma

delícia não ___

um tormento,

 

foi gostar

de ser mulher

e não qualquer

coisa,

 

embora

os anos

passassem

como o vento.

 

 

#4

Qualquer

uma de nós

passa por eles

sem demora;

 

qualquer

uma de nós

festeja os teus ___

aniversários;

 

mas fazer anos

fazê-los como tu

é deveras ___

muito “fora”,

 

tal como

construí – los

hora à hora contra

os adversários.

 

 

Lisboa, 9.01.2008

 

 

 

 

Lembrança das Três Marias

 

#1

Como não é___

por demais

depressa passar

de figura,

 

de mulher

prometida a

qualquer outra

forma desejada;

 

sem deles

ficar saudosa

ou por eles

cair na nortada,

 

ou naquela

forma pegajosa

de abóbora

menina segura.

 

(mulher parva!

Já não fazes ‘frisson’!)

 

 

#2

Como é___

por demais

passar a

meia-noite aflita,

 

pensando no

feitiço que não

chega antes

da hora escura,

 

ou até cheia

daquela sorte má

que volta como

abóbora impura,

 

como na

intragável forma

de Cinderella em

que toda se agita.

 

(mulher abóbora!

Já não fazes ‘frisson’).

 

 

#3

Mas qual é___

então essa

verdadeira

juventude,

 

neste intragável

e abominável

mundo

extremista,

 

senão o

estarmos todas

perante o olhar

sexista,

 

quando antes

deveríamos estar

cheias de muita

virtude .

 

(mulher parva!

Tu és uma abóbora!).

 

 

#4

Basta___

mulheres!

  não há belas

princesas,

 

somos todas

abóboras

cheias de muita

saúde,

 

para quê

sermos todas

sexys ou sabermos

tocar alaúde,

 

se este mundo

machista

só pertence

ás mais tesas.

 

(viva o ‘frisson’!

deixemos de

ser tolas e parvas

mulheres)

 

 

Lisboa, 7.01.2005